
Estar doente é como que viajar de comboio através de uma rota com um trajecto extenso, caminhos muitas vezes tortuosos e/ou sinuosos, com curvas apertadas que fazem os mesmos ficar nauseados, enjoados e por vezes agoniados.
Felizmente que nesse percurso se
encontram paisagens paradisíacas, apesar da velocidade e da rapidez do comboio,
que pode ultrapassar a nossa possibilidade visual de acompanhamento, momentos
únicos que se devem aproveitar, na esperança que possamos visualizar o limite
que a emoção pode na prática permitir.
O compartimento é pequeno; acaba
por tornar a viagem não só tortuosa como também atribulada, através dos carris
ou trilhos previamente dispostos manualmente, sob a força da violência e a
vigilância das armas, troços que deixam imagens que não se vêem por serem
doutra época, mas que o nosso cérebro consegue imaginar como se fosse ontem que
tivessem sido fotografadas.
Estar internado por doença é poder esquecer as saudades de algo, não conseguir perguntar muito, viver numa sociedade diferente, com regras diferentes e prioridades distintas daquilo que é o hábito na presença da colectividade global.
Estar internado por doença é poder esquecer as saudades de algo, não conseguir perguntar muito, viver numa sociedade diferente, com regras diferentes e prioridades distintas daquilo que é o hábito na presença da colectividade global.
O doente sente estar entregue a
si mesmo, tão só, embora intensamente acompanhado, tão perdido numa solidão que
não é a sua, sem um nome porque passou a ser o número da cama, despido porque
não tem os seus objectos pessoais, num palco de movimentos e ritmos atentos, mas
de rigor absoluto desde o trabalho e a avaliação, cuidadosa e vigilante
dos profissionais, às análises que são efectuadas regularmente, às máquinas que
medem, avaliam e tudo controlam.
Apesar da inquietação, apesar do
dever acreditar que a medicina evoluiu muito, apesar do dia ser breve embora
longo, apesar de saber que o dia tem 24 horas não percepcionando a hora aproximada
do ciclo circadiano, ouve-se o barulho envolvente, os comentários da certeza ou
da incerteza, os assuntos de discussão do dia a dia, da crença ou
da descrença, que leva a saber que afinal ainda vive num mundo real, embora
diferente.
Revisita-se a si próprio; sabe
que vai sobreviver, dando término à sua odisseia, conseguido então chegar a um
porto com destino que era o pretendido, no sentimento da sua própria compaixão
perante a injustiça de ser ele próprio e não outro.
O apego à vida na sua forma de
relação com o transcendente, ajuda ao combate pleno contra a doença, numa
recusa de desistência através de uma combatividade de um corpo que é máquina
mas também engloba a mente, voz interior que nos comanda, reforço que dá a
força e a esperança necessária para se continuar a lutar, fazendo o regresso da
viagem de comboio, com um vigor diferente, uma energia motivante, determinação
de continuar a realizar viagens por esse mundo fora.
É o sentimento de muitos que
passaram pela doença ou pelo internamento por doença.
Sem comentários:
Enviar um comentário