terça-feira, 10 de setembro de 2019

Tempos livres - De Pedrogão a Álvaro, antes dos fogos

Resultado de imagem para Entre pedrogão e alvaro a naturezaNum dia pouco calorento, com nuvens ameaçadoras de escuro, mas com algumas abertas entre as mesmas, decidimos sair cedo para fazermos um passeio pedestre visitando a Ponte Filipina construída em 1610 e que até 1954 foi a única ligação entre Pedrógão Pequeno e Pedrógão Grande.

Eis que o tempo ameaçador se tornou realidade com a presença de aguaceiros frequentes o que nos levou a repensar o passeio.

Após uma visita curta ao pontão da Barragem do Cabril, com alguma ataxia provocada pela visão dos 136 metros de altura, fomos visitar a ilha que se consegue atualmente contornar de carro. Parámos na mesma para vislumbrar a magnifica paisagem que a mesma nos permite, nomeadamente a beleza das margens evidenciando a imponência nos seus limites.

Aí se decidiu pelo passeio alternativo. Passámos ao lado do restaurante Lago Verde, regressámos a Pedrogão Pequeno e iniciámos uma rota que não conhecíamos, pelo que fomos para uma aventura diferente.

E tão diferente que foi que através de estradas “terciárias” (só não eram de terra batida), andámos perdidos entre Roqueiro e Arrochela. Pedimos ajuda a uma senhora idosa e qual não foi o nosso espanto que com grande clareza e mesmo iniciativa trilhou-nos o caminho a percorrer e com tanta clareza que nem o nosso GPS conseguiu fazer melhor (aliás foi um instrumento nesta altura desconcertante pois até para dentro da barragem nos queria indicar, talvez caminho subterrâneo a relembrar o túnel da Mancha…).

Imagens magnificas e inesquecíveis sobre o rio Zêzere, na visualização dos seus contornos e curvas, a sua coloração verde azulada, margens delicadas, mas ainda selvagens, felizmente com um caudal que mais o ostentava.

Passámos Madeirã e em algures, perdido no campo, numa pequena aldeia que mais parecia um monte, numa pequena tasca fomos agraciados com uma sandes de bom presunto acompanhado de vinho caseiro, que complementou as nossas forças para continuarmos a nossa etapa em direção à aldeia de xisto denominada Álvaro.

Terra que não destoa desta lânguida e serpenteante viagem, sita num alto, onde se observa uma paisagem magistral envolvente. Povoação com ligações antigas a várias ordens religiosas que ainda hoje marcam a sua presença com a arte sacra, a pintura, nas suas capelas e a sua Igreja principal.

Regressámos felizes por um passeio de uma beleza redundante, desde o rio à natureza  envolvente, impregnada de árvores, algumas de dimensão impressionante, que mais pareciam ser sombras “espirituais” na envolvência da água.

Toda uma paisagem colorida, reluzente, digna de uma zona algo virgem e natural;

Ainda não tinham aparecido os fogos mortíferos que transformaram esta zona num negro atroz, cruel e desapiedado!



terça-feira, 20 de agosto de 2019

Reflexões de Médico - O Médico "Desfardado"


Resultado de imagem para o médico desfardadoA propósito de uma memória descritiva relativamente ao facto de um médico ter sido impedido de entrar num determinado serviço de urgência como acompanhante de um familiar e que terá levantado alguma celeuma nos meios sociais ligados aos próprios médicos.


Há algumas décadas um médico que se apresentasse nas condições atrás descritas, seria impensável e inconcebível ser impedido de entrar num serviço hospitalar que respeita ao exercício das suas funções direta ou indiretamente, nomeadamente por um segurança, ou administrativo ou enfermeiro.

Pelo contrário;

A deferência era sem dúvida diferente, havendo respeito mútuo, levando a própria cortesia ao ponto do médico ser acompanhado e apresentado ao colega escalado, convidando este próprio à sua integração na equipa presente para avaliar o doente familiar.

A troca de impressão clínicas;

A discussão de outros assuntos relacionados com a profissão, técnicos ou não, a desumanidade nos espaços impróprios pela sua dimensão ou instalação e como resolvê-los ou remediá-los, já o próprio Fernando Namora foi bem descritivo nesse sentido.

Um decoro de responsabilidade e apreço pelo próprio médico como ser e como profissional numa sociedade em que o mesmo era respeitado de maneira diferente da atual, sem dúvida com alguns privilégios que poderiam ser algo exagerados, mas com uma presença na sociedade demonstrativo da sua importância na cura, recuperação ou minimização das dores ou sofrimentos mentais ou físicos difundidos na sociedade em geral, tal como também na sua posição, integrante da sociedade social e politica, com peso consultivo e muitas vezes decisivo.

Houve sem dúvida uma evolução da individualidade, que amenizou ao longo dos anos a supremacia reconhecida aos médicos, individualidade essa que não é alheia a própria classe médica, dividida entre si no que é ser médico integrante no contexto intrapar, com o devido respeito entre os próprios nas suas várias gerações e entre uns e outros e finalmente como reagir à sua própria integração na sociedade atual!

Tudo pode estar relacionado com cansaço na evolução (ou involução) das políticas de saúde, tal como o médico dever ser para a sociedade “um objeto” que só servirá, segundo aqueles, para manter equilibrados os orçamentos das políticas inadequadas ou combater os contratos programas desajustados ou desapropriados, ou na altura da necessidade de terem de recorrer aos cuidados de saúde, entregando-se temporariamente na mão dos médicos.

Não se unam que não vale a pena!


E é pena que assim seja e assim estejamos… 

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Humor - A Charrete poderá vir aí de novo!


Imagem relacionada A Charrete poderá vir aí de novo!

A iminente falta de combustível a partir do dia 12 de Agosto, leva-nos a ponderar alternativas à longa espera que se avizinha nas bombas de gasolina, seja pelos serviços mínimos ou máximos já que com grande confusão ninguém se vai entender num país democrático (será que é isto um país democrático?).

A opção da Charrete, que por aí existem muitas, sejam em grandes garagens sujas de pó (não a Charrete que se encontra limpa) ou nos muitos Museus espalhados por este país fora, (aí sim, limpos por falta de visitantes), é uma das mais válidas para o nosso século, nomeadamente num século tão impoluto (como diz Trump), como eram os séculos passados (com excepção do XX).

A poupança será tremenda, ainda mais quando movidas por tração humana (em cuidando a necessidade de calorias, podendo os supermercados estarem desprovidos de tais substancias), ou então ainda maior quando impelidas por animais não humanos como os cavalos, burros (cuidado com estes) ou até mesmo os bois (sugere-se a sua utilização se não se gostar de touradas).

Não se esqueçam de apurar o estado das canas de pesca e do engodo, que o facto dos animais terem de ter períodos por vezes longos de repouso, prevê-se a duração das viagens, se por exemplo se for até ao Algarve, necessidade que poderá levar a pescar umas carpas ou achigãs perdidos por barragens ou albufeiras que não tenham sofrido a evolução com a presença do ser humano como exemplo a existência dos siluros, seres manipulados pelas mesmas mãos que manusearam levando a invenção daquelas “coisas” que se chamam carros (ou automóveis).

Assim irão ter umas boas férias, que eu também vos desejo.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Reflexões de Médico - A Solidão nos Hospitais

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Estar doente é como que viajar de comboio através  de  uma  rota  com  um  trajecto  extenso, caminhos muitas vezes tortuosos e/ou sinuosos, com curvas apertadas que fazem os mesmos ficar nauseados, enjoados e por vezes agoniados.


Felizmente que nesse percurso se encontram paisagens paradisíacas, apesar da velocidade e da rapidez do comboio, que pode ultrapassar a nossa possibilidade visual de acompanhamento, momentos únicos que se devem aproveitar, na esperança que possamos visualizar o limite que a emoção pode na prática permitir.

O compartimento é pequeno; acaba por tornar a viagem não só tortuosa como também atribulada, através dos carris ou trilhos previamente dispostos manualmente, sob a força da violência e a vigilância das armas, troços que deixam imagens que não se vêem por serem doutra época, mas que o nosso cérebro consegue imaginar como se fosse ontem que tivessem sido fotografadas.


Estar internado por doença é poder esquecer as saudades de algo, não conseguir perguntar muito, viver numa sociedade diferente, com regras diferentes e prioridades distintas daquilo que é o hábito na presença da colectividade global.

O doente sente estar entregue a si mesmo, tão só, embora intensamente acompanhado, tão perdido numa solidão que não é a sua, sem um nome porque passou a ser o número da cama, despido porque não tem os seus objectos pessoais, num palco de movimentos e ritmos atentos, mas de rigor absoluto desde o trabalho e a avaliação, cuidadosa e vigilante dos profissionais, às análises que são efectuadas regularmente, às máquinas que medem, avaliam e tudo controlam.

Apesar da inquietação, apesar do dever acreditar que a medicina evoluiu muito, apesar do dia ser breve embora longo, apesar de saber que o dia tem 24 horas não percepcionando a hora aproximada do ciclo circadiano, ouve-se o barulho envolvente, os comentários da certeza ou da incerteza, os assuntos de discussão do dia a dia, da crença ou da descrença, que leva a saber que afinal ainda vive num mundo real, embora diferente.

Revisita-se a si próprio; sabe que vai sobreviver, dando término à sua odisseia, conseguido então chegar a um porto com destino que era o pretendido, no sentimento da sua própria compaixão perante a injustiça de ser ele próprio e não outro.

O apego à vida na sua forma de relação com o transcendente, ajuda ao combate pleno contra a doença, numa recusa de desistência através de uma combatividade de um corpo que é máquina mas também engloba a mente, voz interior que nos comanda, reforço que dá a força e a esperança necessária para se continuar a lutar, fazendo o regresso da viagem de comboio, com um vigor diferente, uma energia motivante, determinação de continuar a realizar viagens por esse mundo fora.

É o sentimento de muitos que passaram pela doença ou pelo internamento por doença.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Diário de leitura - Livro "Lincoln no Bardo" de George Saunders
















No Tibete, o livro Tibetano dos Mortos explica-nos a existência da terra dos mortos habitado por fantasmas, chamando-se bardo ao "transito" entre a morte e a reencarnação.

George Saunders levou mais de quatro anos a descrever a história, percebendo-se após a leitura o seu dimensionamento, nomeadamente no sentido de pesquisa, já que retrata uma época de guerra civil tendo como fundo a presidência de Abrahan Lincoln. A partir da morte do seu filho William, Saunders constrói um romance, tendo de visão, por um lado a visita do pai de William à sua sepultura, descrevendo o que se passa durante a noite, acentuando a vida imaterial através de uma história idílica sobre os fantasmas que aí permaneciam e por outro lado o sofrimento humano tanto de um pai como as variadas histórias que os fantasmas vão desvendando da sua personalidade observável a partir do "outro mundo".

É um romance não isento de emoção que faz pensar sobre o espiritismo, o que existirá do outro lado, ou se como muitas vezes digo, se há vida para além da vida.

Classificação 7/10, livro cordial.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Meditações - Ser visível ou invisivel

Somos visíveis no mundo em que vivemos, porque acreditamos através da nossa mente que vimos tudo o que se estende ao longo do horizonte que os nossos olhos alcançam através do mais ínfimo pormenor, desde que a retina, mesmo nublada, o permita observar.

Também somos visíveis porque vivemos numa sociedade com as suas regras próprias, valores distintos e os preceitos normativos que por mais que se queiram ocultos, ou que se pretendam renegar, estão e estarão sempre presentes seja em democracia ou estado autoritário, que vão dominando as pessoas e a sua cultura ou incultura, conforme o que mais fé possa dar à classe dominante e/ou politica.

Então e ser-se invisível, com a possibilidade de ver doutra forma o mundo em que vivemos, a configuração bizarra dos comportamentos humanos na senda de uma vida que se vai tornando mecanicista e corporal como se funcionássemos através de um backOffice, desentorpecimento que o mundo tenta expor, fruindo aparentemente de uma evolução de bem-estar e boa aventurança, de atitudes pessimistas encobertas na sociedade em que se vive.

Poder ser-se invisível durante algum tempo, o suficiente para indagação do comportamento diário da sociedade que nos rodeia e em que todos nos inserimos, poder-se-á aprender como mudar uma comunidade para melhor, destapando-a dos seus buracos e covas, cobrindo estes com areia ou cimento, progredindo para uma felicidade sem paradoxo mas com nexo, atingindo-se um bem virtuoso, que aos nossos olhos também se poderá juntar a nossa voz, feições menos formatadas e modos mais virtuosos, tal que permita que um qualquer sonho possa vir a ser uma realidade não ficcionada.   


domingo, 26 de março de 2017

Diário de leitura - Livro "Para onde vão os guarda-chuvas"" de Afonso Cruz


É o primeiro livro que leio de Afonso Cruz. Surpreende-me pela forma simplicista como escreve sobre tanta coisa, levando-nos a uma reflexão permanente sobre a sociedade e as pessoas que nela são integradas, tentando evidenciar que pese as diferenças sociais, religiosas e politicas, num contexto de questões delicadas entre os muçulmanos, hindus e cristãos, pode haver ainda tolerância, paz e amor, num mundo onde a intercolaboração pacifica é cada vez mais difícil.

Estamos perante o oriente efabulado com o que tem de mágico, como de perverso, numa história que se vai desencadeando, como se tudo se pudesse jogar metaforicamente através das peças de um tabuleiro de xadrez, peças transformadas em personagens, entrecruzadas ao longo da história, desde a procura do amor aos acessos de violência, às várias tragédias pessoais que vão ditando e impondo o essencial ao longo das 620 páginas do livro.

Toca em questões tão delicadas como sejam os maus tratos em crianças ou prostitutas, a exploração infantil, a violência sobre a mulher, os interesses políticos, o terrorismo ou a intolerância religiosa.  

É uma escrita simples, melodiosa, sem artifícios desnecessários que fala sobre tanta coisa bonita, que dá vontade de pegar no livro várias vezes para reter tantas bonitas passagens que o mesmo nos transmite. 

Tem um final duro e inesperado.

Classificação 5/5 conversador, obrigatório.


sexta-feira, 24 de março de 2017

Meditações - O Equivoco e a Mente


Aquele era o dia que eu previa, pelos sonhos nocturnos, que me iria ressentir de algo que não sabia o quê. Talvez dia aziago, diferente do habitual, pensamentos decadentes, as lágrimas eram nulas e vãs, mas a vontade era preenchida por aquilo que eu considerava como enferma, para algo que a minha mente antecipou, mas cujo propósito final continuava a ser um desígnio ainda obscuro e apagado, não o conseguia aclarar.

O mundo é uno, as surpresas das atitudes são por vezes um pasmo se não assombros da própria natureza humana, porque se vivemos num mundo real em que tudo o que nos rodeia é autentico, então o que nos poderá acalentar e tranquilizar por aquilo que sabemos sentir, mas não conseguimos fazer a leitura correcta porque a língua é indivisível e muitas vezes indissolúvel.

O mundo engana-nos, mas nós também nos enganamos, ou porque estamos distraídos e não esperamos, ou porque não sabemos que a vida é futura e não passada. A vida não é una, desorienta-nos, faz-nos esquecer, somos ser andantes, por aí andamos, como que esquecidos, engalanamos e adornamos aquilo que nos parece real, mas se calhar é mentira, mentimo-nos a nós próprios.

As perguntas são desfechos que nos entrelaçam, muitas vezes, por inesperadas e injustas nos mantém mudos e credos, os anos passam, o ambiente envolvente bole o cérebro à sua própria maneira de pensar ou de “dar jeito”, sim, é tempo de acreditar naquilo que não nos afiança a pureza das palavras, sejam vãs, vazias ou mesmo ocas. É esse o potencial de acção que as conexões sinápticas querem permitir aos axónios para que a sua desenvoltura as possa sentir, aceitar, desenvolver, ampliar e “espigar”.

O erro é um equivoco, por isso mesmo nos confunde como se uma realidade fosse…, Mas não é! 

sexta-feira, 10 de março de 2017

Opinião - CGD e Cáritas: o Enredo e o Poder Labirintico


Será a vida um enredo, que nos faz focalizar e evidenciar o espectro  de um antagonismo que muito nos deveria dizer, mas que nos confunde como se olhássemos para um infinito colorido de azul, mas cuja visão nos faz desfocar e ver uma cor desarmónica, ou estaremos na realidade perdidos numa teia de poder labiríntico cuja cor é mesmo real, mas que o poder no mundo consegue afastar a ilusão protagonista da realidade encapotada?

Isto a propósito das noticias diárias que a comunicação social vai ditando, nomeadamente nas capas dos desvios “normais” de milhões de euros, noticias tão frequentes, que da sua normalidade só podemos estranhar se no mundo, de repente se pressentir o silêncio e o peso da entranha que nos dá os sentimentos para acreditar que não estamos perante qualquer verdade, mas sim precisamente num enredo ficcional.

Coube a vez da Caixa Geral de Depósitos apresentar os prejuízos, sendo o valor mais elevado da história do Banco, como se a nossa memória recente e não só, tivesse sido omitida, porque o acaso nem sempre é uno, tal como a nossa capacidade de memorização pode ser indissolúvel  a esse ponto.

Ou o caso da Cáritas, instituição criada pela Igreja para ajudar os pobres da diocese de Lisboa, que ostenta depósitos bancários desde há anos, de milhões de euros e que vem justificar essa almofada financeira com a necessidade de acautelar o agravamento da crise económica e social.

Sem dúvida que este enredo provoca uma narrativa sem ética, nem valores, nem princípios que se devam adequar ao que deveria ser na realidade o mundo privado e livre da hipocrisia e falsidade, pois que tudo serve para inventar a inexistência do caminho normal de onde se deva sair com postura de quem luta pela vida, seguindo os preceitos da dimensão educacional que permita uma competição distinta do logro e do embuste.



quarta-feira, 8 de março de 2017

Meditações - Pobreza



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Fui surpreendido, há alguns dias, na minha casa, por alguém que tocou a campainha; através do intercomunicador verifiquei ser um jovem de bom aspecto exterior, bem vestido, educado na sua linguagem, com voz meiga, simples, suave, pedindo desde logo desculpa pelo incómodo, como que a desculpabilizar-se pelo seu ato posterior, que foi pedir dinheiro ou pelo menos alguma comida.

Numa sociedade que se diz livre, mas que todos os dias vimos as noticias na comunicação social sobre corrupção, de desvios de milhões de euros que sendo julgados nunca serão recuperados, não nos poderemos admirar que na sociedade continue a haver pessoas que por mais que tentem lutar contra o desvario, não consigam ter a oportunidade de se integrarem numa sociedade em que a oportunidade profissional é completamente dissonante e injusta.





Diário de leitura - Livro "À Luz do que sabemos" de Zia Haider Rashman


Após o livro “Bússola”, que me marcou profundamente, tomei a coragem de ler o livro “À Luz do que sabemos” de Zia Haider Rahman, romance que nos leva ao estado de uma insónia permanente, através de uma história, que exemplifica o que se modificou no mundo a partir do 11 de Setembro de 2001 e do aproveitamento politico e económico que aquela catástrofe permitiu, não se olhando a meios para atingir os fins da ilegalidade.

É um romance fascinante, que monopoliza variados temas culturais, que vão desde os valores epidemiológicos do mundo orientalista que passaram a ser explorados de maneira diferente, com a conivência das grandes potências, nomeadamente EUA e Inglaterra. Também o racismo, a emigração, fenómenos históricos, religiosos e económicos são romanceados neste livro, a partir da epopeia de um homem que se desagregou psicologicamente com o conhecimento inesperado das situações que teve de enfrentar e confrontar.

Finalmente o aproveitamento sob a capa das Organizações Não Governamentais, para pessoas que sem qualquer escrúpulo enriquecerem, sem terem qualquer pudor em assassinar, violar, ou fazer rebentar bombas para acabar com os “indesejáveis”, entre outros factos.  

Um romance que afinal terá muito de realidade sendo na minha opinião um livro de não-ficção  romanceado, porque a verdade está lá, bem inserida e apresentada.

Livro a não deixar de ler, pese as suas 736 páginas.


Classificação 5/5 conversador, obrigatório



domingo, 26 de fevereiro de 2017

Reflexões de Médico - Central Nuclear de Almaraz, parte1: Um sarcófago explosivo?


A central nuclear de Almaraz é a central activa mais antiga de Espanha, em funcionamento desde os anos 1980 e estaria previsto o seu encerramento em 2020.

Afinal, em vez do seu encerramento, Espanha decidiu construir ainda um armazém de lixo, aterro nuclear na central para resíduos radioactivos, que utiliza o Rio Tejo, para refrigeração com todo o impacto ambiental que pode provocar quer na região transfronteiriça, mas  também na estremadura portuguesa já que o Rio Tejo desaguando em Lisboa poderá originar uma catástrofe de proporções incalculáveis.

Haja ou não estudo obrigatório de impacto ambiental, sabem-se as implicações que existem em material tão nocivo à saúde, não só relativamente aos seres humanos, como para os restantes animais e plantas.

Poderá tornar-se um lugar de morte de onde não se pode fugir. As centrais têm por esse mundo sido encerradas, porque ao longo dos anos as fendas e fissuras vão permitindo fugas de radiação que de uma maneira ou outra vão deixando contornos de problemas de saúde pública, seja a contaminação das águas com aquecimento ou as alterações dos peixes como no Rio Tejo; vejam-se a diferença de temperatura, mais altas na águas perto da central, ou a dimensão dos peixes que aí são pescados e que os locais sabem que não servem para alimentação.

Fala-se do iodo, mas isso…é quase nada, porque se uma fuga tomar proporções de maior intensidade então poderemos estar perante um sarcófago, melhor um defunto que respira radiação que normalmente não tem cheiro, pese os programas de emergência e os planos estratégicos de protecção civil, que por melhor que sejam, as populações ficarão seriamente prejudicadas.


domingo, 19 de fevereiro de 2017

Os Meus Rascunhos - Transplante de Orgãos: Crimes Contra a Humanidade na China


Fiquei surpreendido com uma reportagem recentemente apresentada num canal televisivo sobre a violência dos transplantes de órgãos advindos estes dos praticantes de Falun Gong, encarcerados não por quererem o mal da sociedade mas porque desenvolvem fortes valores morais na China, inaceitáveis pelos tiranos que governam esse país.

Falun Gong é uma prática que cultiva a mente e o corpo, cujos valores morais se assimilam à natureza do universo através da aplicação da verdade, da benevolência e da tolerância, fortalecendo desse modo a saúde mental e física das pessoas.

O governo da China, inexplicavelmente desde 1999 que persegue estes praticantes com reeducação, prisão, trabalho forçado, tortura física e pena de morte.

É uma preocupação crescente em toda a comunidade internacional estes praticantes serem executados no sentido de fornecerem órgãos para receptores de transplante, sob o olhar complacente de organizações como as Nações Unidas e outras que se limitam a pedir explicações sobre a sua origem, quando existem provas convincentes que este negócio passa também além fronteiras beneficiando muita gente que sem escrúpulos vai à China para ser transplantado, inclusive do coração (mata-se um ser humano de imediato para fornecer este órgão a outro).

São ganhos financeiros exorbitantes, sendo uma industria que movimenta um bilião de dólares por ano desta abusiva criminalidade, que infelizmente os governantes de todo o mundo mantém uma atitude complacente, de silêncio ignóbil, permitindo a perpetuação deste tipo de abuso e tortura.


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Diário de leitura - Livro "Bússola" de Mathias Enard


Iniciei a leitura deste romance com cuidado redobrado já que tinha a ideia que iria adquirir conhecimentos sobre assuntos pouco comentados no mundo literário; para além disso Mathias Enard utiliza uma linguagem acompanhada de musicologia, estilo a que não estamos habituados, ainda para mais sendo muito dela oriunda dos países árabes.

É uma lição de conhecimento e deslumbramento sobre o mundo orientalista, numa sucessão de aventuras oriundas de artistas, académicos e aventureiros, ousadas e arriscadas em países orientalistas bem conhecidos de nós, nomeadamente pelas piores razões.

O rosto da revolução. Na página 327: “os jovens iranianos que tinham vivido entre o Xá e a Republica Islâmica, esta classe média que tinha gritado, escrito, lutado, acabaram todos enforcados, mortos ou obrigados ao exílio…” se dúvidas houvesse!!!

Também um romance de amor impossível naquele mundo sem tréguas, em que tudo se explora e muito se perde, ou se ganha.

Um livro esplêndido.


Classificação 5/5, livro conversador, obrigatório.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Meditações - Socorrer e Sofrer

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Aquela noite de lua cheia, a do desenlace fatal, ficou irremediavelmente fixa na retina, pese o passar dos anos e a experiência de uma vivência de acontecimentos violentos que nos levam a adaptar e conformar nas situações violentas e hostis por mais incómodas que sejam.

Todo o profissional mantém a frieza e a lucidez necessárias para que qualquer situação de socorrismo corra o melhor possível, o que normalmente acontece.

Mas o que observámos era cruel, ninguém merece aquilo!

O carro lateralizado, a flutuar, como se de um barco se tratasse a navegar em alto mar. Pessoas dentro do mesmo, em ambiente “estranho” como movimentos involuntários como se estivessem a nadar, pese o pouco espaço existente; a intervenção rápida das equipas de socorro e desde logo a perceção do desmoronar futuro de algumas das cadeias familiares, pelo sofrimento e pela saudade futura dos seus entes.

Era a juventude no seu primeiro quarto que a vida lhes poderia dar

Socorrer é também sofrer!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Diário de leitura - Livro "Não se pode morar nos olhos de um gato" de Ana Margarida de Carvalho



Fabuloso e prodigioso este livro, que desde logo apresenta um titulo fascinante e chamativo.  Desde o primeiro parágrafo somos envolvidos na leitura com se da própria história também nós fizéssemos parte.

Impõe-nos um certo ritmo de leitura através de uma escrita densa, espessa, complexa e profunda que nos obriga a uma atenção redobrada e que maquinalmente somos impelidos a mantermos fixamente a atenção na história, tal é o interesse que se instalou na nossa mente, a pensar na surpresa sobre o desenvolvimento das páginas seguintes.

Uma história de sofrimento na ação de várias e distintas personagens, que por motivos díspares cruzaram a história de Portugal em conexão com o Brasil e países de África. O leitor quando dá por si integra também a emoção do náufrago, nunca abandonado pela “Santa”, como que sendo aprisionado no fascínio desta escrita estilística muito pessoal da escritora, mas que tento subentender estar próxima tanto de José Saramago como de Rentes de Carvalho.

Sem dúvida um dos melhores livros de 2016.

Classificação 5/5, livro conversador, obrigatório.

domingo, 13 de novembro de 2016

Diário de leitura - Livro "História de um Canalha" de Julia Navarro


Livro apropriado para leitura de férias, como foi o meu caso, onde é abordado o tema sobre a manipulação física e psíquica da mente da mulher, transportadas para o mundo dos tormentos, através da crueldade de um homem, que não olha a meios para atingir o seu fim, nem que daí provenha a morte das mesmas.

Thomas, sendo um solitário, sem sentimentos, com vontade de praticar o mal desde que com isso consiga objectivar a sua pretensão, é um grande manipulador mesmo que para isso tenha de atingir a crueldade extrema.

Consegue mesmo após a sua morte manter a sua presença destruidora, condicionando a vida dos envolventes da sua vida anterior.

Sendo um livro de leitura fácil, não é uma grande obra literária, mas explora um tema interessante, a maldade, tema atual, focando-a com uma profundidade extrema, através de uma narrativa cativante, sedutora, que prende o leitor à sua leitura pelo tema aliciante e atractivo. 

Classificação 3/5, livro cordial.


quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Os Meus Rascunhos - Couço Revisitado


Revisitei o Couço, local onde nasci, cerca de 45 anos após ter saído da mesma, ao ter de acompanhar os meus pais noutros voos que os mesmos tinham em vista.

A emoção esperada no passeio de "reconhecimento", redescobrindo aquilo que me parecia ainda ter na minha memória de infância, imagens límpidas e transparentes de uma realidade já passada, mas tão atualizada que parece que foi ontem que deixei esta tão histórica aldeia.

Um almoço bem preenchido no restaurante os maias com torresmos divinais e pezinhos de coentrada tão saborosos, regado de bom vinho a pressão, foi o condimento para continuar a sublinhar o enternecimento e o sentimento que continuará na minha alma e no meu físico até à sua plena finitude.


Um dos locais onde vivi anos, na casa ao lado da igreja, bem visível na memória, com histórias passadas que o meu subconsciente não esquece, nem esquecerá, porque com tanta lucidez me vieram à memória e transbordaram o inesperado.


O rio Sorraia, a pesca de barco, o Sr. Alfredo a ensinar-me a fazer barcos de cortiça, a sua padaria, as aventuras com os amigos, a escola primária, os avós, os tios, os primos, os amigos, as viagens de carroça do monte da Boavista ou da Corlinha, a vida da minha infância!


Não esquecerei, nunca, o local onde nasci e que revisitei tantos anos depois´e que pretendo regressar.


sábado, 5 de novembro de 2016

Diário de leitura - Livro "Zero K" de Don Delillo

O novo romance de Don Delillo, tenta relacionar a morte, na sua imortalidade tentada, com o aspeto material, tendo como narrador principal o filho de um sexagenário bilionário que investiu num secreto laboratório de investigação sobre vitrificação, criopreservação e nanotecnologia, lugar sinistro e vigiado, onde se preservam os corpos até um futuro indefinido que possa haver o conhecimento necessário para regressarem à nova vida. 

No fundo considera a força do dinheiro no sentido de evitar a morte, adiantando-se à mesma e eternizando a sua individualidade póstuma, reduzindo a sua identidade à imagem de um corpo que não se decompõe.

O narrador intercala a vida espiritual do pai com o envolvimento real do mundo que os envolve.

Livro tocante, bem escrito, com uma prosa irreparável, mas cuja “complexidade” no leva a ter de ler o livro com a calma necessária para podermos acompanhar as sucessivas perplexidades envolventes.


Classificação 4/5, livro com alma

sábado, 29 de outubro de 2016

Ver um filme - O Caso Spotlight

Só agora tive a oportunidade de ver o filme “O Caso Spotlight”, vencedor do Óscar de melhor filme de 2016.

Através do jornalismo de investigação uma equipa de jornalistas, empenhou-se em encontrar provas irrefutáveis sobre o encobrimento da Igreja Católica aos abusos sexuais na Instituição Eclesiástica, nomeadamente em Boston.

Décadas de encobrimento, com ocultação claramente “mafiosa” numa esfera centralizada ao nível religioso e político, levaram à complexidade da investigação, conseguida pela persistência e perseverança, numa longa e difícil luta por acreditarem que se podia ainda fazer justiça, mesmo “imperfeita” aos adultos que tentavam omitir e esquecer o passado pela falta de apoio que sempre tiveram, num espaço centralizado pela predação existente aos vários níveis.

Mexeu na “conspiração mafiosa” à escala mundial, tendo o próprio Vaticano ganhado força para continuar a sua luta, longa e difícil iniciado pelo Papa Bento XVI, no sentido de travar a pedofilia na Igreja.

Um filme terrivelmente verdadeiro.

Classificação 4, filme com alma.