terça-feira, 12 de janeiro de 2016

"Aos médicos só falta serem dados aos leões" por luis Osório Semanário Sol em 11/01/2106

Aos médicos só falta serem dados aos leões

"Em tempo de campanha eleitoral para a Presidência da República (a mais triste de que tenho memória), o país atravessa uma crise de que dificilmente se recomporá. Não por causa do endividamento, do défice, das desavenças parlamentares ou da desagregação do sistema financeiro – mal ou bem, existe a esperança de que se encontrem soluções políticas e económicas globais para problemas que são de todos.
O problema é de identidade. De necessidade permanente de ajustar contas, de procurar culpados, de transformar a vida (e as notícias sobre ela) num guião de novela com picos de interesse que não desmobilizem a atenção das pessoas.
Uma parte importante dos portugueses quer estar entretida com os protagonistas da vida (por vezes da sua própria vida), como está entretida com as figuras das séries que consome. Tudo é volátil, hoje temos um assunto que nos interessa, amanhã outro e por aí adiante.
Ver a comunicação social oferecer o palco dos debates presidenciais a figuras de circo é a prova de uma ausência de problematização. Deixou de ser decisivo definir fronteiras editoriais, assumiu-se que apenas interessa alimentar o apetite das pessoas pela novidade, pelo escândalo, pela sede de novas sensações.
Seria possível fazer de uma outra maneira? Não estou certo. É apetecível ver Jorge Sequeira ou Tino de Rans debater com Marcelo Rebelo de Sousa, vai ao encontro da grande força das televisões provar que todos podemos dar opinião, que todos contamos, que as televisões são o lugar onde todos são realmente iguais – uma igualdade um bocadinho esquizofrénica. 
Nenhum diretor de Informação acredita nisso. Pensam, como eu teria de pensar se dirigisse uma estação de televisão, em audiências.
Para vários, não para todos, o jornalismo não salva o mundo, é apenas a sua caixa de ressonância (tese que terá de ser combatida sob pena de o jornalismo morrer e, com ele, a democracia tal como a reconhecemos).
Nesse sentido, o ataque aos médicos é particularmente indecoroso. Não por ser desculpável o que aconteceu no Hospital de São José, mas pelo clima de persecução, pela forma como a classe médica tem sido castigada por políticos, comentadores e opinião pública. Dizem da sua justiça sem saber nada sobre organização hospitalar, apontam o dedo, fazem julgamentos de valor e de caráter.
Nem por acaso, estive infelizmente na passada semana no Hospital da Estefânia. Era fim-de-semana, na sala de espera encontravam-se dezenas de pessoas apertadas umas nas outras, ambiente muito pesado, crianças a chorar em permanência.
Fui atendido num cubículo por um médico que não dormia há mais de 24 horas, as paredes estavam esburacadas e por pintar, o gabinete separava-se de outro gabinete por uma cortina. A pessoa que tinha à frente, que ganha quatro euros à hora nas suas horas extraordinárias, médico que teve de se licenciar com uma média de 19 valores e depois fazer a especialidade durante mais cinco anos, se desse um berro e tratasse mal alguém que o tivesse tratado mal naquelas horas, é bem provável que fosse agredido e denunciado a um canal de televisão por tratar mal os doentes.
Há médicos que são uns pulhas. Como há professores que deviam ser expulsos do ensino. Porém, o Estado Social (alicerce de uma democracia avançada) morrerá se tudo para nós passar a ser pão e circo.
O que nos restará então? Eleger um dos palhaços a concurso e cada um se fazer à vida. Sem médicos, professores e juízes que poderiam (finalmente) ser atirados aos leões famintos, num espectáculo que bateria todos os recordes de audiência deste mundo e do outro".


sábado, 9 de janeiro de 2016

Novas Tabelas de IRS: "Uns são Filhos outros são Enteados"


Com base nas novas tabelas do IRS, Tiago Caiado Rebelo, Fiscalista, discordando das mesmas, deu uma entrevista à RTP 1 no programa Bom Dia Portugal do dia 8 de Janeiro, que terá passado despercebida, até porque não foi lançado em vídeo.  

Por esse motivo decidi pela sua divulgação escrita desta entrevista:

""Jornalista (J): Foram aprovadas as novas tabelas do IRS, que têm já em conta a redução da taxa, que cai de forma gradual...Vamos olhar então para esta nova tabela de retenção do IRS com a ajuda do Fiscalista Tiago Caiado Rebelo (TCR): 

Tiago, esta tabela é justa?

TCR: A tabela não é justa; sou totalmente a favor da descida de impostos, seja o IRS que acho que é terrível porque penaliza as pessoas que trabalham e produzem riqueza, que é uma coisa que é pouco dita: Quem trabalha e se esforça por criar riqueza é penalizado porque o estado tira uma grande parte daquilo que ele devia receber. Por isso se acho esta descida positiva, o que eu penso é que é absolutamente desigual até porque quando fala de equidade põe a equidade totalmente de lado.

Nós em Portugal temos o IRS mais profundo da Europa, isto é, a partir de determinado nível de rendimento não vale a pena pura e simplesmente trabalhar pelo que há muita gente que deixa de trabalhar porque pura e simplesmente entrega o rendimento ao estado; mais vale ir passear à tarde ou estar com os filhos.

Isto agrava isso e porquê? Porque a partir basicamente dos 40.000 Euros em que só se desce 0,5% não há desagravamento real, ou seja, estamos a fazer uma coisa que este governo já fez várias vezes, isto é existem portugueses de primeira e portugueses de segunda!!!

Questão da jornalista: Mas isto, não é uma questão de tirar mais a quem ganha mais, para tentar compensar ou equilibrar quem ganha menos?

Mas isso já eles fazem. Temos uma progressividade que chega a mais de 60% do rendimento, isto é, em cada 100 Euros a pessoa já só recebe 30 e tal Euros e não recebe 30 e tal por causa de outras "alcavalas". Por isso, a partir de certo ponto não vale a pena trabalhar. É um fenómeno que estamos a ter. Vejo isso com muita gente que conheço, pessoas que até tinham mais que um emprego e trabalhavam em vários sítios davam aulas aqui faziam aquilo, davam aulas à noite e deixaram de fazer essas coisas empobrecendo o país, porque não vale a pena trabalhar mais.

A questão aqui é o do refugo: Há os cidadãos a quem se repõe os salários acrescidos de subsídios e há os outros que pagam tudo isso, é o que acontece e tudo isso é injusto.  Há um conceito de igualdade que devia ser aplicado, mas que não é. Também por trás disto parece haver uma estratégia política e muito orientada para os votos. Então se utilizamos o sistema fiscal com objectivos de votos que é "um bocadinho o que se passa" então estamos a deturpar totalmente. Depois não estranhemos o país não se desenvolver, não crescer, do deficit aumentar e mais outras coisas.

A percentagem de descida dos escalões tem os condicionalismos do deficit, por isso não me impressiona. Se descer, mesmo que pouco é sempre positivo e até acho que descem alguma coisa considerável. O que acho que é mal feito  é que pura e simplesmente uns são filhos e outros são enteados ou são refugo.

"Respondendo à pergunta da jornalista sobre o impacto da economia já que os portugueses ficando com mais dinheiro retido na fonte, se pode ajudar a dinamizar a mesma" afirmou:

Só pode ajudar a dinamizar se o estado fizer cortes na despesa do outro lado porque se fôr por via do deficit temos uma despesa pública enorme e se aumentar a dívida os custos da dívida vão aumentar e de repente até nos podem cortar e entrarmos num ciclo muito complicado em termos de financiamento internacional que nos pode levar a uma recessão do género do de 2011.

Ou isto é gerido com pezinhos de lã e com muito cuidado ou então pode ser problemático.

Dito isto: O estado está viciado em impostos; tem é que se cortar na despesa pública. Não vi proposta de nenhuns cortes de despesa pública. Elogio a diminuição de impostos. Agora onde é que vão cortar para poder fazer isto: Ou vão lançar a seguir, que é o que eu suspeito mais IMI + IVA + mais IRS noutras áreas para financiar tudo isto.""

(Sublinhado da minha responsabilidade)







quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Os Meus Rascunhos - A Metáfora da Flor Simbólica



Aquela Flor, tão exasperante quanto intensa e bela;

Lá se encontra inimaginável, algures num campo penetrante, fim imperceptível, por estar camuflado por uma áurea rosada e luzente, num panorama que mais parece uma fotografia mística e espiritual, mas que na realidade evidencia uma metáfora visual tendo em conta a neblina existente, névoa cerrada, em contradição a algumas nuvens bem escuras, que desenham o universo que bem perto se encontra da nossa pessoa.

A Flor ali permanece, com a sua esteticidade perfeita, tentando manter-se florida, pese estarmos em meados do outono quase invernal, com “coração” resistente ao desgaste da natureza em sua volta, que faz parte da criação do mundo, sendo por isso inesperada, pela sua força exasperante, ou atitude omnipotente por poder ser demolidora e destrutiva, podendo arrasar toda e qualquer ação realizada pelo homem, por mais benévolo que este tente ser.

Sendo a natureza ou não, sendo ela a mandar no mundo, perto ou longe do nosso coração, dependendo da bondade ou da maldade, essa flor conseguiu dizer não, tal como alguns seres humanos que ainda conseguem pelejar pelo mundo, vão conseguindo combater a crueldade, antónimo da bondade que poderia pacificar, reconciliar e harmonizar a favor do ser humano essa mesma natureza: Contra a guerra diária no emprego ou no campo de batalha, contra a fome no mais recôndito do planeta, na minimização do sofrimento do dia-a-dia, na reconsideração de uma melhor vida dentro desta vida como na preparação da continuação da vida que continua para além da morte.

As Guerras físicas e outras desgastantes,

Como sejam as batalhas psíquicas, que o homem tem de suportar, para não se dissipar, nem se deixar consumir, muito menos ficar destruído, com magnificência e grandeza, na sua simplicidade, humildade e singeleza, tentando demonstrar que sendo um ser humano assim deveria ser tratado como tal, seja na realização no Mundo Aberto e Privado, ou na concretização dos seus objetivos no Mundo Fechado e Estatal.

Sem se ser amordaçado no Cosmos Aberto nem no Universo Estatal.

Por isso a nossa felicidade de ainda acreditarmos quando vemos uma Flor Simbólica, que não sendo amordaçada pelo ambiente que a poderia engolir, consegue resistir a tudo e também a si mesma, numa reação de confronto salutar contra os ideais fantasmagóricos implementados numa sociedade, que tendencialmente tenta ultrapassar o que apenas deveria ser ilusório.


quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Feliz Ano Novo 2016


Estamos a contar em ordem decrescente as horas para entrarmos no próximo ano 2016. 

Que seja um ano diferente para melhor, Próspero, Cheio de Alegria, com muita Esperança e Felicidade para todos vós.

Que os Sonhos se possam tornar realidade, os objectivos alcançados;

Mas sobretudo que haja Paz, Amor e Optimismo.

Um Feliz Ano Novo


terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Os Meus Rascunhos - Serviços de Urgência, Profissionais e a Sociedade


Ciclicamente tem-se falado na desvirtualidade do sistema de saúde nas urgências hospitalares, nomeadamente quando vem a público o relato de algum caso real, mas que com o agrément de alguma comunicação social, pela continuidade, levantam exagerada celeuma, de acusações múltiplas, perseguição linguística aos profissionais de saúde, indiscriminação indesculpável, quando o problema se relaciona com o problema de organização, nomeadamente os circuitos internos e externos entre os vários serviços de saúde e não com a qualidade individual e colectiva dos mesmos.

As notícias iniciam-se normalmente com o objetivo de uma investida aos profissionais de saúde, normalmente médicos e enfermeiros, como tem sido o caso tão propagado nos últimos dias, fazendo esquecer ou fazendo por esquecer o verdadeiro cerne das questões que ao longo das dezenas de anos têm permitido o aparecimento de situações graves, com mortalidade negligente ou morbilidade por erro, que de certeza nenhum médico ou enfermeiro desejará que deva acontecer.

Mas mais uma vez, tal como o Governo anterior conseguiu desde 2011 dividir o povo português aplicando, com sucesso, uma “guerrilha” entre trabalhadores privados e funcionários públicos, aproveitam ainda o seu anterior poderio para impor nalguma comunicação social (felizmente poucos), manchetes e artigos sequenciais, duvidosos e escusos, abusivos e indiscriminatórios.

Mas mais grave é o facto de se querer originar atualmente uma Guerra entre Médicos e Enfermeiros, verdadeiros suportes na resposta à doença, que infelizmente já começa a dar algum efeito, entre ambas as áreas profissionais, nos trocadilhos que vão aparecendo nomeadamente nas redes sociais mas que nenhuma das quais merece.

O mediatismo que a classe politica sempre estabeleceu para si própria, desde o 25 de Abril de 1974, não deixa de ser alheia a confusão e mal-estar que se vai verificando ciclicamente, cuja fuga se transmite no ataque aos mais frágeis para dar a imagem que tudo tentaram fazer mas uns “tipos que por aí andam a tentar boicotar…”, na minha óptica o que é imboicotável, por indiferença social, desconhecimento do que é ser colectivo, farsa ilusória, passividade apática e por incompetência de alguma classe politica reinante.

O Povo Português não tem culpa;

Nenhum doente recorre a um serviço de urgência sem justificação, indo ao mesmo, por necessidade de querer resolver um sintoma, ou um problema clínico, que por mais pequeno que seja, de certeza que lhe é incomodativo, senão aí não recorreria, estando a perder o seu tempo se não estivesse doente.

Fala-se de organização dos serviços de urgência hospitalares há dezenas de anos; fazem-se seminários com presença de várias entidades como sejam também a Ordem dos Médicos, como em Setembro do corrente ano sobre constrangimentos e oportunidades dos serviços de saúde com individualidades mediáticas da praça pública, seminários esses que se vão repetindo a cada ano como se de uma Bíblia ou Antigo Testamento se tratasse, porque as sapiências eruditas ficam no esquecimento não passando do culto académico para o mundo prático.

Talvez em vez dos melodramas, seja tempo de definitivamente se definirem as prioridades em termos dos serviços de urgência, seja no sentido organizacional, nas necessidades gerais, na articulação entre as diversas identidades seja intra ou extra-hospitalar, na forma de contactar, comunicar e transportar, ultrapassando as fragilidades e os constrangimentos, com o bom senso e o juízo racional que ainda acredito que possa haver neste país.

Amanhã pode ser um de nós que necessitemos de uma resposta célere, qualitativa e multidisciplinar, para continuarmos a viver sem ou com a mínima morbilidade.

Posso ser eu ou você; então lutemos todos por isso com a convicção, o nexo, a responsabilidade e a certeza das coisas serem definitivamente bem feitas.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Os Meus Rascunhos - O Natal É Celebração


Aquela noite estava chuvosa e fazia frio; uma neblina ajudava ao desanimo dos poucos pássaros que se encontravam perdidos, ou porque se esqueceram de emigrar, por distracção, ou porque não foram aceites pelos seus homólogos para uma emigração para terras tão distantes, ou porque a velhice começou a ser sinal de fraqueza mental (têm células semelhantes ao do nosso neocortex)) e porque também a faceta muscular não lhes é perdoada com o passar dos anos.

Fomos ativados através da viatura médica de emergência médica, tendo na altura sido pouco perceptível a razão da pressa, mas em elevada velocidade chegámos ao local indicado.

Na cidade, coloração visível, de luzes díspares e intermitentes;

Estávamos no Dia 24 de Dezembro, em que estaria a acontecer algo, podendo estar a vida de alguém em risco.

Quando chegámos ao destino indicado, percebemos: O desaparecimento de uma pessoa, na altura refletida através dos holofotes, no interior e no fundo de um poço. A estimulação positiva efetuada verbalmente pelo Bombeiros que com a sua competência e solidariedade para com o cidadão comum, tentavam com os seus meios retirar o mesmo do local onde se encontrava.

Tudo foi rápido, pese a indiferença que foram o passar das horas, até alguém ouvir um grito que mais parecia um gemido, mas sendo ou não, vinha de um ponto longínquo, mas que na realidade estava mais perto do que inicialmente se previa.

Apresentava um estado clínico hipotérmico, com dificuldade em respirar, porque os pulmões não toleraram o excesso de água que para eles entrou; foi aquecido, entubado e ligado a um ventilador, tendo logo que possível, sido transferido para um serviço de cuidados intensivos no hospital.

Passaram algumas horas e estávamos já no dia 25 de Dezembro, poucos minutos passavam da meia-noite;

Os madeiros, algures dispersos pela cidade; muita gente envolvente, garrafas meio vazias ou vazias, gente que parecia dançar, meio cambaleante, danças anómalas não estilísticas pelo menos no que diz respeito ao conhecimento que tenho dessa arte.

A felicidade de um sucesso clínico, numa noite fria e desamena, que mais lembrava a vontade de se estar em família, perto de uma lareira, em tertúlia geracional, razão de milhões de portugueses estarem a essa hora no seu ambiente fechado, luzidio e aquecido.

A melhoria progressiva do doente, até que, no dia 31 de Dezembro, se tirou o tubo que o ligava ao ventilador e pouco depois as suas palavras de esperança: “Hoje é dia 25, Dia Santo, de Natal, o Nascimento do Menino Jesus; tão bem me sabia, se me pudessem dar, uma fatia de bolo-rei”.

Pese a confusão, porque de nada se recordava, a não ser que o dia poderia ser o de Natal;

A satisfação de um ser humano, como homem que é, vivo, melhorado de uma situação em si grave, percebendo que acordou de um sonho que não sabia ter tido;

Comprámos um Bolo-Rei;

Envolvemos o leito do doente e saboreámos com prazer a vitória da solidariedade de dois mundos semelhantes: O sofrimento do doente enquanto doente, superado pela sua força intrínseca, adjuvada pelo conhecimento médico, como também pela solidariedade envolvente que prima na esperança de sempre se tentar fazer o melhor bem possível.