sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Eram os nossos sonhos da infancia

Muitos eram os sonhos da nossa infância...


Ela fazia parte do esquecimento da nossa exasperação, após "o sacrifício" das aulas dadas nas antigas escolas primárias (hoje vendidas a preço de saldo), principalmente quando as nossas mãos estavam mais rígidas e avermelhadas, resultado das "reguadas", modulado aos melhores princípios salazaristas que exigiam o silencio como principio absoluto, mas que como jovens irrequietos decidíamos diariamente não cumprir.

Assim era a nossa vivência numa sociedade anómala intrincada e enredada no seu totalitarismo. Éramos bonecos de trapos desenraizados do tempo, mas que por isso mesmo procurávamos com a frequência possível, dependendo dos tostões que as nossas calças de ganga rotas permitiam ter nos bolsos, furar a cartela da máquina de Regina, esperando a saída de uma bola colorida que nos apontava o sabor de um determinado chocolate que para nós nem sempre era o melhor, pois os melhores prémios ficavam lá (dezenas de anos após continua a sociedade a considerar que nada é o melhor que se consegue!).

Muitos furos se faziam; trazíamos em chocolate o peso que se perdia em moedas, mas era essa a nossa felicidade,

A "caixa de furos" fazia parte da nossa vida, do nosso sucesso ou insucesso para um futuro que não sabíamos na altura que já éramos principiantes de um mundo desconhecido, desconexo, ambíguo e exigente no âmbito amoral.

A Regina existiu e existe.

Tirei esta foto na montra de uma loja em Amarante. 


quarta-feira, 17 de junho de 2015

Aquela Paisagem Deslumbrante



Aquele dia, enevoado e turvo, que pouco nos deixava ver no horizonte que prevíamos profundo. Pela estrada o cuidado era intenso, os olhos vibravam de dor e cansaço, com receio de que uma roda fizesse o que nada nos agradaria num sitio rodeado do nada.

Assim fomos mareando, tentando que o equilíbrio nos levasse a bom porto, o porto da harmonia, mas que teimava em chegar.

Finalmente uma ponta de esplendor se aquilo que víamos seria mesmo claridade provinda do sol. Continuámos, a nossa cegueira foi-se dissipando e eis que uma paisagem digna do além se nos deparou.

A natureza quando observada com olhos sãos de ver, observar, analisar e reparar nos ínfimos pormenores deixa-nos extasiados, a pensar que o mundo onde ainda vivemos tem uma beleza impar, que apenas sufoca a nossa ânsia de ver o que não acreditávamos ser possível contemplar, de ouvir os sons que pensávamos ser parcos.

Basta saber olhar!



sábado, 26 de abril de 2014

A Troika E o Nosso Descontentamento

Os consultores da Troika em obediência aos princípios da Comissão Europeia Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu, têm vindo desde há três anos, de visita periódica ao nosso país, com popa e circunstância, tal como os meios televisivos e a restante comunicação social têm divulgado (resenha de abertura dos jornais televisivos ou das capas de jornais). Pese o facto do fruto do seu trabalho estarem as pessoas cada vez mais tensas, consequência da desvalorização do euro “português”, menos instruídas por efeito do desaparecimento gradual da cultura, mais preocupadas com tudo e com nada, não deixa essa preocupação de ser lógica pela inquietude e pela apreensão que nos trás a incerteza de um futuro desconhecido.

No entanto o nosso país continua a ter um povo que sendo extraordinário na sua maneira de receber o estrangeiro, mesmo que se perceba que vem com a intenção de nos empobrecer ainda mais para além de já sermos dos últimos da tabela na Europa em quase tudo, continuamos no entanto a ser ricos em passividade e a enriquecermos a nossa imaginação; somos soberanos na adaptação às circunstâncias difíceis, sempre com a evidência de um novo sorriso, o sorriso da compaixão, porque somos bondosos e clementes, razão da adaptação e acomodação à realidade que estamos a suportar, como se a tolerância em Portugal fosse um dos mandamentos mais importantes que algum Deus, não sei qual, nos quis infligir.

Senão vejamos,

Portugal é sem dúvida um belo e bonito país, com uma beleza inata, digam os variados roteiros existentes de norte a sul, em que tanta coisa agradável e apetecível há para observar, ver, provar e saborear. Fizeram-se auto-estradas a preço de “apito dourado”, numa época em que o auge era apanágio da palavra política e atributo do facilitismo implementado na mente de todos nós. Essas mesmas auto-estradas, muitas delas inúteis e vazias da sua verdadeira função, por serem desmesuradas em distância embora comedidas de betão para poupança nos bolsos milionários, deixaram de ter o significado que lhes foi atribuído. Vejam-se o número significativo de automóveis que passaram a aproveitar as estradas secundárias, esburacadas, de bermas desarranjadas, e cheias de ervas daninhas, que embora com beleza na primavera escamoteiam espaços que pelo seu perigo possam levar a maior facilidade de acidentes, que as estatísticas em Portugal se habituaram a desdizer, como tudo neste país é fácil ser desdito.

Os carros avariados por essas estradas fora já não se viam; as marcas de maior renome, tal como os de potência avantajada, deixaram de ser tão visíveis, embora por aí vão passando alguns Ferrari ou Porches em mãos de maus condutores que nas poças de chuva se esquecem que os limites das estradas são iguais para todos os que conduzem, pelo que alguns acabam por ficar com chapa incaracterística para este tipo de carros tão avantajados.

Culpamos os consultores, mas estes fizeram o seu trabalho,

As províncias portuguesas têm coisas lindas; não é necessário ir para o Gerês para se identificarem bonitas paisagens com paradisíacas quedas de água ou moinhos que os antigos construíram sabe-se lá em que condição por essas ribeiras fora; houve autarcas mais prodigiosos de esperteza que aproveitaram os fundos comunitários para construírem invenções que nem ao diabo lembraria, ou reconstruírem algo a preços de saldo, de maneira que actualmente muitas dessas construções são antigos oásis envolvidos por matagais que dificultam o acesso ao cidadão comum o impedem de saborear aquilo que também foi pago ou continua ser pago com o dinheiro dos seus impostos; qual desventura se essas invenções foram moeda de troca por meia dúzia de votos para o sucesso de mais uma reeleição?

Ir ao Algarve deixou de ser uma necessidade já que praias fluviais nasceram em tudo o que tem água; se muitas se justificam, nomeadamente no interior, outras que não deviam ter sido construídas, vieram demonstrar que os consultores têm razão quando focam a apetência, a propensão e o exagero do português para aproveitar tudo o que mexe, neste caso o vento a bater na água, dando a imaginar que a mesma flutua ou que o espelho idealizado do seu fundo que nos ilumina a nossa própria consciência do tudo querer, mas num país que não tem dinheiro, nem sequer para manter o respeito daqueles que sendo idosos e reformados, mereciam muito mais que o nosso respeito, apreço e consideração.

As bicicletas passaram de novo a ser um veículo fantasioso de transporte das horas vagas, melhor que o automóvel, possibilitando o conhecimento mais profundo de locais inéditos e inatingíveis doutra forma, na região em que vivemos; podemos sonhar encontrarmo-nos em Mirandela a provar um óptima posta de carne que não interessa ser mirandesa, mas é da nossa zona, que por isso não deixa vir de pastagens que facultam uma carne de vitela e novilho de raça (ou não) de boa ou má qualidade, pelo que teremos sempre as cotas necessárias para que a carne continue na ementa do dia-a-dia que todos prezamos.

E as herdades por aí espalhadas muitas sendo novos latifundiários, como se o 25 de Abril não tivesse existido, outras passaram a ser propriedade de estrangeiros, sinal evidente que cada vez menos pertencemos a uma terra lusitana e nacionalista e cada vez mais a um emaranhado de culturas, pelo que qualquer dia andaremos a tentar perceber qual o nosso lugar nesta sociedade que de Camões cada vez fica mais e apenas o seu nome.

Estamos mais pobres embora não de coração,

O ordenado mínimo atinge valores de antes do 25 de Abril de 1974, os ordenados médios atingem os valores de 1999, o nosso sorriso vai-se tornando esforçado e descolorido, os consultores sabem isso, mas também sabem que muitos subsídios foram dados ao nosso país, para a formação das pessoas, para o progresso da educação, para a organização e desenvolvimento da investigação científica, para a modernização da agricultura, das pescas, da indústria, do comércio, do turismo rural, das barragens, do vinho, do leite… Mas esse dinheiro também que foi aproveitado, não para a expansão da economia global do nosso país, mas para proveito próprio de algumas pessoas, que preferiram construir habitações familiares, nomeadamente segunda e terceira habitação em praias a pensarem no escurecimento e bronzeamento da pele ou em serras para poderem admirar o branco da neve, luxos em grandes viagens para conhecerem esse mundo “nunca dantes descoberto”, aquisição de carros de topo que as nossas estradas esburacadas apenas permitem evidenciar a sua beleza, excesso de construção de auto-estradas sem carros, pontes de qualidade duvidosa, aeroportos sem aviões para aterrar, dinheiro depositado em paraísos fiscais…e por aí fora…

Mas os Consultores também falharam,

Sabem melhor que ninguém que a nossa justiça não funciona; grupos organizados impedem cada vez mais o seu funcionamento, quer pelo tráfico de influências que movimentam, quer pela instrumentalização da sociedade, mais que óbvia, no sentido de se manter a corrupção, para proveito dos mesmos, nem que para isso continue a “prodigiosa” deterioração da sociedade portuguesa.

Nestes três anos que periodicamente nos têm visitado, em vez de se terem deixado deliciar com a nossa paisagem, o nosso sol e a nossa comida deviam ter tido os olhos mais abertos, porque muitas negociatas financeiras podiam ter sido evitadas, impedido a traficância efectuada na bolsa da Lisboa, que permitiram que alguns bancos se tivessem enchido de dinheiro, as fraudes nos concursos públicos, o adiamento dos prazos de finalização de obras, os túneis desnecessários, o número de intermediários para aprovação de projectos dúbios e ambíguos…

Aí sim estou à vontade para vos dizer que falharam

Não fizeram bem o trabalho de casa, puseram-se a dormir à sombra de uma bananeira da nossa Madeira ou de um ananaseiro de uma das ilhas dos Açores. Esqueceram-se que sempre existem astutos habilidosos, engenhosos, os chamados popularmente de aldrabões. Esqueceram-se de mandar fiscalizar os subsídios, controlar os gastos, verificar as contas e inspeccionar a execução do produto final, perceber acima de tudo como funciona a economia paralela no nosso país.

Existimos nós, mas também existem os nossos filhos, que têm a perspectiva de futuro além-fronteiras com a visão da emigração,

Olhem então para o nosso país doutra forma, para este povo que na sua maioria para além de pacato é ordeiro, pacífico e sociável, é optimista e acredita em si mesmo e nas suas potencialidades, desde que a Europa nos dê paz, concórdia e que passe definitivamente a acreditar e a admitir que afinal o cenário embora seja negro, o povo português é trabalhador e sabe inovar nos momentos difíceis. Facultem-nos essa oportunidade porque a queremos segurar, e desejamos mostrar o que na realidade valemos (desde o período ancestral) porque os portugueses têm talento, são empreendedores, desfrutam de ideias, que vão ser aproveitadas de certeza para mudar a Europa para melhor!


Mas já é tempo de perceberam que a crise é de todos e não só de alguns!


quinta-feira, 27 de março de 2014

Camões, Reaparece Para Ressuscitares Este País

Andamos alucinados porque tudo o que se tem passado neste país não deixa de ser uma mera ilusão, porque não desejamos acreditar. Não acreditamos porque tivemos um Camões que através dos Lusíadas incutiu-nos no ensino secundário a nossa independência, lembrando a acção grandiosa dos portugueses por esse mundo inteiro.

Não acreditamos porque continuamos a pensar que D. Sebastião por aí andará perdido algures em África, homem imortal que qualquer dia aparecerá para salvar a honra de um país que a perdeu, não sejam só os Judeus a terem a paciência de esperar pelo seu próprio Messias, com sentido semelhante mas mais amplo, pois quando nascer virá salvar o mundo, embora eu próprio não saiba se nessa altura ainda haverá mundo…

Descremos porque não existe dia nenhum que não se fale em cortes visando diversas áreas de actividade, mas essencialmente a Administração Pública, alvo preferencial e mais fácil de atingir, seja nos salários, sejam as reformas, sejam os suplementos remuneratórios, sendo esses profissionais tratados como se bodes “expiatórios” se tratassem, ou seres que deixaram de ser humanos por se entender que enfermam do pestífero, camuflando-se desta maneira a completa incapacidade governativa de quem na última década tem tido a inaptidão e por isso a contribuição e o tributo da derrocada em que nos encontramos.

A história relembra durante passados séculos a nossa paciência infinita, porque o povo português prefere ser conformado e resignado, preferindo acomodar-se à realidade da actualidade, caricaturar a classe política corrupta nos meios sociais, em vez de exigir responsabilidade social, jurídica e penal para de vez acabar com o fosso entre quem está “está lá em cima”, muito longe do conhecimento do que se passa na realidade do dia-a-dia “cá em baixo”, seja nas empresas, nos hospitais, nos centros de solidariedade, na rua, no contacto directo permanente com as populações e não só em vésperas eleitoralistas, tentando percepcionar assim o porquê das dificuldade que o cidadão comum e anónimo está na sua maioria a passar na actualidade.

A única certeza que podemos ter é involução social, de um povo que deixou desde a existência de Camões, de ter Armas e Barões Assinalados e muito menos gente remota que na altura muito edificou e sublimou; ficam para a posteridade essas lindas palavras que nos podem motivar no nosso trabalho do dia-a-dia, mas que no entanto sabemos que não passam de meras palavras vãs, ocas e fúteis, porque de ilustres apenas a panaceia do desastre verbal dos deputados e governantes por completo desconhecimento da realidade, ou de grandes interesses pessoais.

Até Fernando Pessoa nas “Mensagens” retratou Portugal no seu declínio, clamando e apregoando a necessidade de uma nova força anímica, não o tendo no entanto conseguido transmitir à população, tal como foi reconhecido o valor da sua obra, pela qual todos temos uma estima e um respeito de grande apreço.
   
Até lá vamos acreditando que não vivemos neste país empobrecido, repleto de mitos, de incertezas, em que a falta de esperança porque se deixou de acreditar…É apenas mais um sonho que estamos a ter.


sexta-feira, 14 de março de 2014

EUTANÁSIA? EU DIGO NÃO

Aquele era mais um dia, semelhante aos anteriores, desde que dei entrada nesta cama com a cabeceira perto de uma pequena janela, cuja luminosidade fosse a claridade ou a cintilação da lua, não me ajudava a saber as horas, mas ia-me permitindo ainda conseguir diferenciar entre o ser dia ou o ser noite.

Era um pequeno rectângulo de espaço, uma cama apertada, mas o suficiente para saber que a minha vida dependeria dessa pequena extensão, já que tinha um tubo ligando os pulmões a um ventilador mecânico, que fazia o trabalho daquele, permitindo-me sonhar com a vida mas percebendo também que o limiar entre essa mesmo e a sobrevivência pode ser extremamente pequeno.

Nos poucos momentos que eram de lucidez, acordava sem saber se passavam minutos, horas ou dias; ouvia os médicos e os enfermeiros cochichando; lá iam dizendo que o “caso é mau”, “provavelmente vai morrer”, “o choque está a ser refractário aos medicamentos”, “os antibióticos não estão a surtir o efeito desejado”…

É a sensação do nada, um vazio que não é preenchido porque é oco mas também vago, o saber que se vai morrer, num corpo sem resposta imunológica, mas interessantemente, sem desejo de morrer, porque sente e que para além desse vazio do nada, não existe dor, só sofrimento psíquico. Surge a recordação da vida, a lembrança de ter sido demasiado vivida ou então dos momentos que nunca foram vividos, mas agora ainda mais que nunca, é altura de discernir que viver é existir, é pensar, raciocinar e meditar pese os poucos instantes de lucidez, apesar da altura sendo antagónica, não ser por isso mesmo o momento mais propicio a sedimentar aquilo que poderá ser noutras ocasiões o fortalecimento do nosso ego.

Lembro-me de discussões sobre a eutanásia, tenha sido com amigos, após filmes vistos, ou após leituras lidas e relidas; aquilo de se ser um farrapo humano, um pedaço de vida escondido só para se poder afirmar que se está vivo, cheio de dores física e psíquica, um corpo sem dignidade, sem honra e vulnerável, não o sinto, penso de outro modo, cogito e reflicto, os tempos são outros, a medicina evoluiu. Hoje a dor é parte integrante da preocupação e da compreensão dos profissionais de saúde, que perante medicamentos em escolha, limitam essa mesma dor aos limites da incompreensão cerebral, pelo que, se ela ainda existe não deixa de ser um sopro ou um assobio que rapidamente se encobre perante os químicos que de maior poderio assim o impõe e ordena na compreensão do puzzle que é o nosso corpo orgânico.

Sobrevivi,

Apetece-me dar um grito, que seja audível à distância, feliz, ditoso e afortunado. A compaixão de quem sofre é uma realidade da sociedade actual, mas a evolução intelectual e tecnológica do século XXI, com os conhecimentos recentes de como actuar sobre o físico e o psíquico dos doentes que sofrem e pensam que a eutanásia será o destino mais sequente de deixarem de sofrer, eu direi,

Não,

A vulnerabilidade? Ultrapassar-se-à com a relembrança: Os familiares, os amigos, os sonhos, os projectos,     

A medicação para me fazer esquecer a dor, dando a vitalidade necessária, mas também suficiente, para fazer ultrapassar a dificuldade que eventualmente nos possa ainda cegar em pensamento, a esperança de saber que vivendo o mais tempo possível, na esperança de ainda ter tempo para poder ser feliz, tendo o olhar virado para confrontar o mundo que me foi imposto, o percurso de vida que foi exigido, leva-me a sentir ser não uma peça do baralho, mas um ser em si mesmo, pensante e racional, por isso mesmo a ser tentado a permanecer no trilho da vivacidade e da vivência possível e durante o tempo que o meu organismo o desejar.

Porque acredito nisso tudo, porque sei e senti que o sofrimento pode perfeitamente ser ultrapassável pelo desenvolvimento dos medicamentos e da tecnologia, do aparecimento de novas formas de substituição dos nossos órgãos, pelo afecto e ternura de quem de nós lida nesses momentos difíceis, considero ser a eutanásia um assunto cuja compreensão não pode ser a mesma que havia até ao fim do século passado.

Hoje o sofrimento ultrapassa-se de variadas formas, ajudando a podermos encontrar o verdadeiro sentido da nossa vida, não negando, desde o nascimento, o sentimento intrínseco em nós próprios, impedindo a fuga ou a desistência, ajudando à persecução dos objectivos próprios que nos levaram a confrontar este mundo terrível, por isso mesmo na liberdade a manter a dignidade que sempre tivemos desde a nascença. Por tudo sou obrigado a afirmar:

NÃO À EUTANÁSIA: Lutemos sim para que a nossa dignidade seja uma realidade que terá de ser respeitada até ao último suspiro.       



segunda-feira, 3 de março de 2014

A Igreja, o Património, os Santos e as Santas

Estava vento, ameaçava chuva, a estrada era estreita e encontrava-se esburacada no percurso, desde que deixámos a estrada principal, à procura de uma pequena igreja, conhecida pelos peregrinos que nas suas caminhadas para Santiago de Compostela nela fazem jus à sua condição de forasteiros, fazendo parte da rota dos românicos.

A Igreja é a de Telões, pequena aldeia, sendo freguesia do Concelho de Amarante, embora distante do mundo “real”, arranjada, ordenada e organizada, numa das saídas da aldeia, que não é saída nenhuma, porque mais estrada não existe.

Exteriormente com vestígios romanos, apresenta um alpendre que faz a ligação entre a fachada principal e o campanário.

Mas como é hábito nos monumentos em Portugal, encontrava-se encerrada porque não era dia de missa e o padre desloca-se doutra povoação, o que não acontece todos os dias, porque a sua actividade religiosa não se esgota nesta pequena igreja.

No entanto, encontrámos próximo um grupo de pessoas de idade que conversavam, mas que foram por nós interrompidos. Na sequência de boa convivência, apareceu como que por magia nas mãos de alguém, anónima, umas chaves, antigas, que pareciam obsoletas mas que rapidamente puseram a descoberto o interior da igreja.

Ouvimos então a história real de um interior que se tenta manter rico, porque a força de união das pessoas da aldeia conseguiram preservar, mas com dificuldade, peças raras e valiosas, que neste momento por outros lados andariam, porque noutras mãos estariam, fornecendo e abastecendo a carteira de alguns, pois a venda em “mercado negro” de quadros e outros objectos de grande valor, sejam altares próprios do culto ou outros, levariam, como levaram noutros locais, ao despejo, para enriquecimento de alguns, como também ao empobrecimento do nosso património que já foi vasto, mas vai sendo cada vez mais depauperado.

Também a discriminação das mulheres, que a religião católica ainda não conseguiu fazer ultrapassar, foi evidente, com a separação entre os Santos e Santas, os primeiros expostos no altar e em sua volta e as Santas, com excepção da Maria, guardadas na sacristia, mais longe da vista do povo, “não fossem elas brigar umas com as outras”, e “o altar vem abaixo” expressões ditas vivamente de quem nos estava a levar por uma visita guiada.

Pois também a moral própria de quem costuma recorrer à igreja, provavelmente por machismo ou receio de transpor as próprias regras pessoais, pode ser decisão suficiente para não contrariar aquilo que não quer ver, pois Santos são Santos enquanto Santas não se percebe muito o valor que podem ter quer na sociedade quer nas religiões em geral (veja-se também o que se passa no islamismo).

Finalmente entrámos, noutra localidade, numa loja de artesanato; num local interior, só acessível aos mais curiosos, deparámos com pequenos altares para venda, assinalados com preço alcançável para quem tenha carteiras bem recheadas de dinheiro; mas o que nos chocou foi o facto de percebermos que afinal o nosso património está mesmo a ser delapidado…Por quem?