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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Meditações - Socorrer e Sofrer

Resultado de imagem para socorrer e sofrer

Aquela noite de lua cheia, a do desenlace fatal, ficou irremediavelmente fixa na retina, pese o passar dos anos e a experiência de uma vivência de acontecimentos violentos que nos levam a adaptar e conformar nas situações violentas e hostis por mais incómodas que sejam.

Todo o profissional mantém a frieza e a lucidez necessárias para que qualquer situação de socorrismo corra o melhor possível, o que normalmente acontece.

Mas o que observámos era cruel, ninguém merece aquilo!

O carro lateralizado, a flutuar, como se de um barco se tratasse a navegar em alto mar. Pessoas dentro do mesmo, em ambiente “estranho” como movimentos involuntários como se estivessem a nadar, pese o pouco espaço existente; a intervenção rápida das equipas de socorro e desde logo a perceção do desmoronar futuro de algumas das cadeias familiares, pelo sofrimento e pela saudade futura dos seus entes.

Era a juventude no seu primeiro quarto que a vida lhes poderia dar

Socorrer é também sofrer!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Diário de leitura - Livro "Não se pode morar nos olhos de um gato" de Ana Margarida de Carvalho



Fabuloso e prodigioso este livro, que desde logo apresenta um titulo fascinante e chamativo.  Desde o primeiro parágrafo somos envolvidos na leitura com se da própria história também nós fizéssemos parte.

Impõe-nos um certo ritmo de leitura através de uma escrita densa, espessa, complexa e profunda que nos obriga a uma atenção redobrada e que maquinalmente somos impelidos a mantermos fixamente a atenção na história, tal é o interesse que se instalou na nossa mente, a pensar na surpresa sobre o desenvolvimento das páginas seguintes.

Uma história de sofrimento na ação de várias e distintas personagens, que por motivos díspares cruzaram a história de Portugal em conexão com o Brasil e países de África. O leitor quando dá por si integra também a emoção do náufrago, nunca abandonado pela “Santa”, como que sendo aprisionado no fascínio desta escrita estilística muito pessoal da escritora, mas que tento subentender estar próxima tanto de José Saramago como de Rentes de Carvalho.

Sem dúvida um dos melhores livros de 2016.

Classificação 5/5, livro conversador, obrigatório.

domingo, 13 de novembro de 2016

Diário de leitura - Livro "História de um Canalha" de Julia Navarro


Livro apropriado para leitura de férias, como foi o meu caso, onde é abordado o tema sobre a manipulação física e psíquica da mente da mulher, transportadas para o mundo dos tormentos, através da crueldade de um homem, que não olha a meios para atingir o seu fim, nem que daí provenha a morte das mesmas.

Thomas, sendo um solitário, sem sentimentos, com vontade de praticar o mal desde que com isso consiga objectivar a sua pretensão, é um grande manipulador mesmo que para isso tenha de atingir a crueldade extrema.

Consegue mesmo após a sua morte manter a sua presença destruidora, condicionando a vida dos envolventes da sua vida anterior.

Sendo um livro de leitura fácil, não é uma grande obra literária, mas explora um tema interessante, a maldade, tema atual, focando-a com uma profundidade extrema, através de uma narrativa cativante, sedutora, que prende o leitor à sua leitura pelo tema aliciante e atractivo. 

Classificação 3/5, livro cordial.


sábado, 29 de outubro de 2016

Ver um filme - O Caso Spotlight

Só agora tive a oportunidade de ver o filme “O Caso Spotlight”, vencedor do Óscar de melhor filme de 2016.

Através do jornalismo de investigação uma equipa de jornalistas, empenhou-se em encontrar provas irrefutáveis sobre o encobrimento da Igreja Católica aos abusos sexuais na Instituição Eclesiástica, nomeadamente em Boston.

Décadas de encobrimento, com ocultação claramente “mafiosa” numa esfera centralizada ao nível religioso e político, levaram à complexidade da investigação, conseguida pela persistência e perseverança, numa longa e difícil luta por acreditarem que se podia ainda fazer justiça, mesmo “imperfeitaaos adultos que tentavam omitir e esquecer o passado pela falta de apoio que sempre tiveram, num espaço centralizado pela predação existente aos vários níveis.

Mexeu na “conspiração mafiosa” à escala mundial, tendo o próprio Vaticano ganhado força para continuar a sua luta, longa e difícil iniciado pelo Papa Bento XVI, no sentido de travar a pedofilia na Igreja.

Um filme terrivelmente verdadeiro.

Classificação 4, filme com alma.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Os Meus Rascunhos - Aqueles minutos




O outro automóvel fora de mão e repentinamente o toque inevitável no volante, tocando as "falsas" bermas, meio caminho para o despiste; 

Essas bermas “deformadas” e desreguladas… 
Mas também a distracção dos outros pode-se fazer pagar “caro” incluindo a própria morte. 
Pois…O despiste e o voo; 
Relembrança do carro se encontrar imobilizado de lado; 
O não conseguir sair por encarceramento e sem se poder mexer; 
Os bombeiros e a equipa médica, a ajudar, 
As perguntas, 
Mas uma cadeira de criança… 
Ainda mais perguntas; a apetecer chorar, mas felizmente não havia qualquer criança a acompanhar a viagem; 
Tudo correu bem, felizmente, 
Só mais um acidente de muitos nas estradas portuguesas. 
Mas nem todos correm bem, por isso a mortalidade nas nossas estradas são das mais elevadas da Europa.

Muita coisa ainda terá de mudar…A começar pela educação!



quarta-feira, 16 de março de 2016

Os Meus Rascunhos - Brasil, o Paraíso Descontente


“O Brasil não é um país para principiantes” frase de Tom Jobim, que resume o Brasil atual, com Lula sob a alçada da Justiça ter sido levado para um lugar de Ministro por Dilma, conseguindo a imunidade judicial de alegado branqueamento de capitais mediante ocultação de património e falsificação de capitais, envolvido em escândalos de corrupção.

Quem não teme não deve;

Brasil é um país com todas a condições para ser dos mais ricos do planeta, mas fica demonstrado por este ato “pensável”, que não se viverá uma democracia na verdadeira essência da realidade, onde grandes interesses se sobrepõem à melhoria das condições de vida da população, onde praticamente não existe uma classe média, nem existem previsões de melhoria, numa economia que neste momento não é sustentável.

O recente Mundial de Futebol já havia demonstrado grandes manifestações de descontentamento num país cujo ordenado mínimo ronda os 135 euros e os bilhetes dos jogos custavam em média cinco vezes esse valor.

E agora, Brasil?

As atenções quer nacional e internacional irão estar centradas, mais uma vez, no comportamento do povo em termos de manifestações, violência e por outro lado, revendo o pensamento durante o mundial de futebol, de aprovação de legislação que eventualmente vise proibir manifestações, equiparando-as a atos de terrorismo ou utilizando outros meios de dissuasão que mantenha a possibilidade dos acusados em sede de tribunal, nomeadamente de prisão, poderem a andar a passear e confortavelmente poderem ser acusados e condenados como qualquer pessoa no mundo democrático a isso está sujeito

Cazuza, cantor, poeta e compositor brasileiro tinha razão quando pediu “Brasil mostra a tua cara” e gritou “que país é esse?”



terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Os Meus Rascunhos - Serviços de Urgência, Profissionais e a Sociedade


Ciclicamente tem-se falado na desvirtualidade do sistema de saúde nas urgências hospitalares, nomeadamente quando vem a público o relato de algum caso real, mas que com o agrément de alguma comunicação social, pela continuidade, levantam exagerada celeuma, de acusações múltiplas, perseguição linguística aos profissionais de saúde, indiscriminação indesculpável, quando o problema se relaciona com o problema de organização, nomeadamente os circuitos internos e externos entre os vários serviços de saúde e não com a qualidade individual e colectiva dos mesmos.

As notícias iniciam-se normalmente com o objetivo de uma investida aos profissionais de saúde, normalmente médicos e enfermeiros, como tem sido o caso tão propagado nos últimos dias, fazendo esquecer ou fazendo por esquecer o verdadeiro cerne das questões que ao longo das dezenas de anos têm permitido o aparecimento de situações graves, com mortalidade negligente ou morbilidade por erro, que de certeza nenhum médico ou enfermeiro desejará que deva acontecer.

Mas mais uma vez, tal como o Governo anterior conseguiu desde 2011 dividir o povo português aplicando, com sucesso, uma “guerrilha” entre trabalhadores privados e funcionários públicos, aproveitam ainda o seu anterior poderio para impor nalguma comunicação social (felizmente poucos), manchetes e artigos sequenciais, duvidosos e escusos, abusivos e indiscriminatórios.

Mas mais grave é o facto de se querer originar atualmente uma Guerra entre Médicos e Enfermeiros, verdadeiros suportes na resposta à doença, que infelizmente já começa a dar algum efeito, entre ambas as áreas profissionais, nos trocadilhos que vão aparecendo nomeadamente nas redes sociais mas que nenhuma das quais merece.

O mediatismo que a classe politica sempre estabeleceu para si própria, desde o 25 de Abril de 1974, não deixa de ser alheia a confusão e mal-estar que se vai verificando ciclicamente, cuja fuga se transmite no ataque aos mais frágeis para dar a imagem que tudo tentaram fazer mas uns “tipos que por aí andam a tentar boicotar…”, na minha óptica o que é imboicotável, por indiferença social, desconhecimento do que é ser colectivo, farsa ilusória, passividade apática e por incompetência de alguma classe politica reinante.

O Povo Português não tem culpa;

Nenhum doente recorre a um serviço de urgência sem justificação, indo ao mesmo, por necessidade de querer resolver um sintoma, ou um problema clínico, que por mais pequeno que seja, de certeza que lhe é incomodativo, senão aí não recorreria, estando a perder o seu tempo se não estivesse doente.

Fala-se de organização dos serviços de urgência hospitalares há dezenas de anos; fazem-se seminários com presença de várias entidades como sejam também a Ordem dos Médicos, como em Setembro do corrente ano sobre constrangimentos e oportunidades dos serviços de saúde com individualidades mediáticas da praça pública, seminários esses que se vão repetindo a cada ano como se de uma Bíblia ou Antigo Testamento se tratasse, porque as sapiências eruditas ficam no esquecimento não passando do culto académico para o mundo prático.

Talvez em vez dos melodramas, seja tempo de definitivamente se definirem as prioridades em termos dos serviços de urgência, seja no sentido organizacional, nas necessidades gerais, na articulação entre as diversas identidades seja intra ou extra-hospitalar, na forma de contactar, comunicar e transportar, ultrapassando as fragilidades e os constrangimentos, com o bom senso e o juízo racional que ainda acredito que possa haver neste país.

Amanhã pode ser um de nós que necessitemos de uma resposta célere, qualitativa e multidisciplinar, para continuarmos a viver sem ou com a mínima morbilidade.

Posso ser eu ou você; então lutemos todos por isso com a convicção, o nexo, a responsabilidade e a certeza das coisas serem definitivamente bem feitas.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

A Maratona


Persistência e Firmeza podem ter como exemplo a MARATONA, corrida bela e interminável, que continuará muito para além da nossa morte.

Pode ser difícil perceber o porquê da vontade das pessoas correrem, sem preconceito de medalha, ou de vocação ou simplesmente por imaginarem uma eventual medalha para uma estante estática que nada lhes vai acrescentar em termos de satisfação.

Mas já a lenda dos 42,195 quilómetros, revivência da corrida de um jovem Ateniense para anunciar aos conterrâneos a vitória sobre os Persas, provoca no século atual, pejado de pessimismo, negativismo e desanimo, uma prova de resistência ao estorvo político, de esperança pelo futuro e da vontade de ultrapassar obstáculos e dificuldades, não alheias à complexidade que por mais estadista se seja, sente-se na vivência da dinâmica existente no nosso dia-a-dia.

Será por isso que as pessoas correm com o seu prazer desmesurado, colocando em prova uma resistência ímpar, uma esperança mundana e uma vontade invulgar, correndo para se sentirem vivos, revivendo a sua antítese, lançando a si próprios um desafio que muitas vezes ultrapassa a sua própria compreensibilidade.

A confiança própria;

Esquecendo o desgaste físico lançam a si próprios um próprio desafio: A descrição da sua experiência às gerações vindouras, transmitindo encorajamento, estímulo e uma confiança firme, que ultrapassa e abafa qualquer incerteza, abatimento interior, negativismo espiritual, transferindo esperança, confiança e segurança, sabendo que o próprio objetivo é cruzar a meta com ou sem fôlego, mas com a felicidade de se conseguir uma façanha talvez inexplicável para os mesmos, mas compreensível à luz da razão dos próprios sacrifícios.

Como se fosse uma levitação;

O entusiasmo do ego, a felicidade orgulhosa de suplantar o inultrapassável, a felicidade de vencer a sede atroz e de ultrapassar o calor inimaginável, a dor esquecida do desgaste físico, o suor a espairecer-se, o cansaço evaporado, a exaustão a ficar oculta relaxamento ultrapassa o orgulho que nessa altura deixa de ter importância, seja qual seja a sua intensidade

É ser-se conhecedor dos próprios limites, sabendo que o tempo cumpre o seu papel, da decadência física, mas que até lá possa ser em glória, na satisfação do gozo que dá correr, mas que não deixa de haver para os mesmos um sentimento de orgulho, numa máquina humana que sendo orgânica nessas alturas poderá ter de funcionar com se inorgânica fosse.

A energia positiva a ultrapassar a barreira do psiquismo dúbio.


quinta-feira, 27 de março de 2014

Camões, Reaparece Para Ressuscitares Este País

Andamos alucinados porque tudo o que se tem passado neste país não deixa de ser uma mera ilusão, porque não desejamos acreditar. Não acreditamos porque tivemos um Camões que através dos Lusíadas incutiu-nos no ensino secundário a nossa independência, lembrando a acção grandiosa dos portugueses por esse mundo inteiro.

Não acreditamos porque continuamos a pensar que D. Sebastião por aí andará perdido algures em África, homem imortal que qualquer dia aparecerá para salvar a honra de um país que a perdeu, não sejam só os Judeus a terem a paciência de esperar pelo seu próprio Messias, com sentido semelhante mas mais amplo, pois quando nascer virá salvar o mundo, embora eu próprio não saiba se nessa altura ainda haverá mundo…

Descremos porque não existe dia nenhum que não se fale em cortes visando diversas áreas de actividade, mas essencialmente a Administração Pública, alvo preferencial e mais fácil de atingir, seja nos salários, sejam as reformas, sejam os suplementos remuneratórios, sendo esses profissionais tratados como se bodes “expiatórios” se tratassem, ou seres que deixaram de ser humanos por se entender que enfermam do pestífero, camuflando-se desta maneira a completa incapacidade governativa de quem na última década tem tido a inaptidão e por isso a contribuição e o tributo da derrocada em que nos encontramos.

A história relembra durante passados séculos a nossa paciência infinita, porque o povo português prefere ser conformado e resignado, preferindo acomodar-se à realidade da actualidade, caricaturar a classe política corrupta nos meios sociais, em vez de exigir responsabilidade social, jurídica e penal para de vez acabar com o fosso entre quem está “está lá em cima”, muito longe do conhecimento do que se passa na realidade do dia-a-dia “cá em baixo”, seja nas empresas, nos hospitais, nos centros de solidariedade, na rua, no contacto directo permanente com as populações e não só em vésperas eleitoralistas, tentando percepcionar assim o porquê das dificuldade que o cidadão comum e anónimo está na sua maioria a passar na actualidade.

A única certeza que podemos ter é involução social, de um povo que deixou desde a existência de Camões, de ter Armas e Barões Assinalados e muito menos gente remota que na altura muito edificou e sublimou; ficam para a posteridade essas lindas palavras que nos podem motivar no nosso trabalho do dia-a-dia, mas que no entanto sabemos que não passam de meras palavras vãs, ocas e fúteis, porque de ilustres apenas a panaceia do desastre verbal dos deputados e governantes por completo desconhecimento da realidade, ou de grandes interesses pessoais.

Até Fernando Pessoa nas “Mensagens” retratou Portugal no seu declínio, clamando e apregoando a necessidade de uma nova força anímica, não o tendo no entanto conseguido transmitir à população, tal como foi reconhecido o valor da sua obra, pela qual todos temos uma estima e um respeito de grande apreço.
   
Até lá vamos acreditando que não vivemos neste país empobrecido, repleto de mitos, de incertezas, em que a falta de esperança porque se deixou de acreditar…É apenas mais um sonho que estamos a ter.


segunda-feira, 3 de março de 2014

A Igreja, o Património, os Santos e as Santas

Estava vento, ameaçava chuva, a estrada era estreita e encontrava-se esburacada no percurso, desde que deixámos a estrada principal, à procura de uma pequena igreja, conhecida pelos peregrinos que nas suas caminhadas para Santiago de Compostela nela fazem jus à sua condição de forasteiros, fazendo parte da rota dos românicos.

A Igreja é a de Telões, pequena aldeia, sendo freguesia do Concelho de Amarante, embora distante do mundo “real”, arranjada, ordenada e organizada, numa das saídas da aldeia, que não é saída nenhuma, porque mais estrada não existe.

Exteriormente com vestígios romanos, apresenta um alpendre que faz a ligação entre a fachada principal e o campanário.

Mas como é hábito nos monumentos em Portugal, encontrava-se encerrada porque não era dia de missa e o padre desloca-se doutra povoação, o que não acontece todos os dias, porque a sua actividade religiosa não se esgota nesta pequena igreja.

No entanto, encontrámos próximo um grupo de pessoas de idade que conversavam, mas que foram por nós interrompidos. Na sequência de boa convivência, apareceu como que por magia nas mãos de alguém, anónima, umas chaves, antigas, que pareciam obsoletas mas que rapidamente puseram a descoberto o interior da igreja.

Ouvimos então a história real de um interior que se tenta manter rico, porque a força de união das pessoas da aldeia conseguiram preservar, mas com dificuldade, peças raras e valiosas, que neste momento por outros lados andariam, porque noutras mãos estariam, fornecendo e abastecendo a carteira de alguns, pois a venda em “mercado negro” de quadros e outros objectos de grande valor, sejam altares próprios do culto ou outros, levariam, como levaram noutros locais, ao despejo, para enriquecimento de alguns, como também ao empobrecimento do nosso património que já foi vasto, mas vai sendo cada vez mais depauperado.

Também a discriminação das mulheres, que a religião católica ainda não conseguiu fazer ultrapassar, foi evidente, com a separação entre os Santos e Santas, os primeiros expostos no altar e em sua volta e as Santas, com excepção da Maria, guardadas na sacristia, mais longe da vista do povo, “não fossem elas brigar umas com as outras”, e “o altar vem abaixo” expressões ditas vivamente de quem nos estava a levar por uma visita guiada.

Pois também a moral própria de quem costuma recorrer à igreja, provavelmente por machismo ou receio de transpor as próprias regras pessoais, pode ser decisão suficiente para não contrariar aquilo que não quer ver, pois Santos são Santos enquanto Santas não se percebe muito o valor que podem ter quer na sociedade quer nas religiões em geral (veja-se também o que se passa no islamismo).

Finalmente entrámos, noutra localidade, numa loja de artesanato; num local interior, só acessível aos mais curiosos, deparámos com pequenos altares para venda, assinalados com preço alcançável para quem tenha carteiras bem recheadas de dinheiro; mas o que nos chocou foi o facto de percebermos que afinal o nosso património está mesmo a ser delapidado…Por quem?



sábado, 25 de janeiro de 2014

No Dia em que os Coveiros Fizeram Greve

Naquele dia enevoado, os Coveiros decidiram por unanimidade, depois de analisarem os problemas da classe, decretarem uma greve por tempo indeterminado.

A população tomou conhecimento da notícia pelos jornais; ficou perplexa porque não entendeu nem quis perceber: Greve? Estão doidos, o que será dos mortos, quem lhes dará o trato final no caixão, quem os enterrará e quem os velará?

A Assembleia da República e o Primeiro-Ministro nada se preocuparam, porque era mais uma de muitas outras greves, de outros malfeitores que tudo queriam mas nada mereciam, mas cujo controle das forças policiais sobejava e que rapidamente o cansaço a faria terminar, para além da revolta que iria provocar na população.

Mas esqueceram-se dos factos reais,

A vida, pelo país começou a tornar-se insuportável. As pessoas já sofríveis pela crise permanente e duradoura, sem fim à vista, começaram cada vez mais a ficarem menos amistosas, a irradiarem a sua pouca animosidade, não para os Coveiros, mas para os políticos que mais uma vez não quiseram ou não se aperceberam do quanto de prejudicial se adivinhava a continuação dessa greve.

Parecia tudo ter saído de um livro de ficção, mas não. As capelas começaram a abarrotar de corpos inanimados, os familiares e amigos confusos porque queriam velar um determinado corpo, mas eram tantos que ou velavam vários sem saber o real ou fingiam velar e saiam rapidamente da casa mortuária. Os funcionários das agências funerárias andavam descontrolados, nervosos, agitados, preocupados e inquietados quando as pessoas iam ter com eles culpabilizando-os da situação, confundindo-os, porque nem os próprios percebiam da razão que estava a levar à confusão e anarquia do país.

O Ministro da Saúde, após reunião com os seus consultores e assessores, muitos deles médicos, quando estes lhe transmitiram a possibilidade de uma catástrofe de Saúde Pública devido à decomposição dos corpos, ao cheiro nauseabundo dos mesmos e às doenças mortíferas que daí poderiam advir, aquele pensou e meditou do que melhor seria, se considerar um estado de calamidade, se pensar que quantas mais pessoas morrerem e menos indivíduos existirem, menos dinheiro se iria gastar com a segurança social e mais facilmente se iria conseguir o equilíbrio das finanças do país; mas lá considerou e bem que essa questão do dinheiro mais diz respeito ao Primeiro-Ministro do a ele próprio, portanto não iria por esse caminho.

Pior, a recordação histórica do passado, da Época Medieval;

A pestilência, mas logo alguém pensou fazer negócio projectando leprosarias, ou ratoeiras electrónicas para apanhar os ratos; a tuberculose foi outro dos assuntos discutidos, mas a tal tísica, problema de proletários facilmente seria resolvido com as medidas a implementar. Importante seria preparar uma formação para os médicos e enfermeiros para reaprenderem a sangrar e purgar os doentes e também saberem manusear as sanguessugas, animal que muito iria ajudar na cura das “maleitas” que se estava à espera de aparecerem.

A Assembleia da República só começou a perceber a dimensão da situação quando compreendeu e entendeu que havia outras classes profissionais que quase sigilosamente queriam também reivindicar, ameaçando por esse motivo com greve: Os trabalhadores de recolha de lixo, os médicos, os motoristas, os enfermeiros, os bombeiros, isto o que se sabia dos serviços secretos de segurança do estado e dos serviços de escutas dos telemóveis.

Começaram algumas medidas: Exigir o embalsamento, mas que rapidamente fez esgotar no mercado negro, os óleos e outras substâncias utilizadas para complemento dessa técnica; houve quem rapidamente inventasse maneira de fazer toneladas de gelo para manter os corpos inertes, mas o próprio gelo derretia rapidamente e a água começou a escassear pelo que foi negócio de pouca duração.

Os corpos eram cada vez mais, não havia caixões em número suficiente, a madeira era insuficiente, a água passou a ser insalubre e a comida desesperante no seu sabor.

A Guerra Civil estava iminente...

Toda a Comunicação Social aguardava um veredicto, que tardava em aparecer, aguardando com a paciência que se lhes reconhece, horas infinitas nas entradas dos edifícios do Primeiro-Ministro, Ministérios e Assembleia da República, mas notou-se que poucos estavam presentes junto ao edifício do Presidente da República e percebeu-se que a razão era pelo facto de se saber que este é simplesmente o porta-voz do actual Primeiro-Ministro pelo que por mais que dissesse ou falasse nada traria de novo para a solução da crise.

Mas alguém se lembrou e da cegueira fez-se luz; tal como o petróleo tem o seu valor, que o diga o Rodrigues dos Santos, também a Terra pode ser negociada, empolando o seu valor. Porque não relevar a lei já aprovada sobre os latifúndios e aproveitar a sua diluição objectiva: Dividir os cemitérios em "Pedaços" de Terra que ficariam na posse dos Coveiros, como pertença sua, que dela fariam o que quisessem: Poderiam mesmo enterrar os mortos pondo caixões uns por cima dos outros, até à profundidade possível ou inventada para além de terem direito percentual aos objectos que são depositados com os mortos, muitos valorizados pela inflação atingida pela confusão criada.

Foi o recomeço de uma reforma que não lembraria ao Diabo e ainda bem porque assim ficou todo o país e toda a sua gente abençoada por uma descoberta de que afinal tudo pode ser de todos. O país continuou anarquizado por mais organizado que pareça ter ficado, pois a camuflagem e a dissimulação cada vez mais em voga, não deixa de ser uma maneira ilusória de demonstrar que um país pode ser um exemplo de governação.


domingo, 12 de janeiro de 2014

Libertar Energias

Decidi naquele mesmo dia, um dia do ano, ausentar-me de mim mesmo.

Temos dias, que entendemos e tentamos compreender o porquê do nosso pensamento tão vago de ideias, que levam a ideais sem imaginação, de uma mente confusa por estar preenchida e atestada de coisas passadas mas já inúteis, que nos dificultam ainda mais pensarmos com o coração, pois para que isso seja possível o cérebro não poderá ser um armazém de lixo, com os seus odores desconsiderados e já desvalorizados, mas sim um lindo jardim, colorido com espaço para podermos ver mais além e conseguirmos ouvir a água que a fonte jorra com a melodia tão balada com se de uma cascata jorrasse.

Existem então os locais de culto. São tantos, podem estar perto ou longe, podemos atingi-los a pé ou através de um meio de transporte, pode ser um simples local energizante, ou que nos permita o dom de podermos agir connosco próprios.

Assim foi, uma espécie de aventura diferente.

Não sabia ao que ia, porque conhecia mal.

Subi, fui subindo ainda mais o local escolhido, erguendo a minha visão em direcção da natureza, que por todo o lado existia.

Relembrei livros lidos no passado, porque nome de escritor se encontrava divulgado, literato com a minha profissão e de certeza com as ilusões ou desilusões tal como eu próprio já as tive e no resto da minha vida hei-de continuar a encontra-las disseminadas e dispersas, tal como ele próprio as terá visto e encarado.

Vi jovens com fácies envelhecidas e velhos com discurso rejuvenescido, mas ambos cordiais e prestáveis, ajudando a escolher o caminho certo, aparando sem saber, a nossa incerteza do caminho mais plausível.

Lembrei-me de recordações passadas, mas ponderei, reflecti e finalmente raciocinei: Vou de novo pensar com o coração; é esse o nosso dever, o de olhar o próximo com a dignidade e a força para que a nossa energia possa ser transmitida a quem estando mais fragilizado, dela se possa aprouver.


sábado, 4 de janeiro de 2014

A Mortalidade Infantil e a Sociedade em Geral

Somos um país que desde o 25 de Abril, deixámos de viver solitariamente para nos tornarmos progressivamente uma pátria com vontade de nos inserirmos na Europa. Melhorámos as condições de vida da população portuguesa, nomeadamente as sanitárias e higiénicas, mas também evoluímos na “salubridade” generalizada o que nos permitiu atingir alguns índices de que nos podemos orgulhar, como tenham sido, por exemplo, a taxa de mortalidade infantil ou a taxa fetal tardia, o que no início da primeira década do actual século foi orgulho nacional, pelo lugar que pudemos ocupar entre os países mais evoluídos do mundo.

Esta segunda década como é do conhecimento geral, pelas razões também sobejamente conhecidas, Portugal conseguiu levar a peito as palavras do actual Primeiro-Ministro, quando este afirmou ser necessário seguirmos a via do empobrecimento, quer no âmbito Privado, mas essencialmente a nível da Administração Pública.

Um país que em muitos sectores, mas também nos ordenados, ainda se encontrava a alguns anos luz da maioria dos países da Comunidade Económica, viu por via da política em vigor ver regressar a pobreza em força, razão de maior carência de quem já era pobre, como também do descaminho de uma classe média que em número significativo começou a deixar de ter suporte para ultrapassar as dificuldades que no dia-a-dia se foram impondo à vontade do cidadão comum.   

Na época Salazarista eram evidentes, embora encobertas, determinadas doenças como fossem a tuberculose pulmonar, ou a mortalidade infantil elevada, em número que não interessava saber, fruto dos alicerces da ditadura que impedia com os meios ao seu alcance, para proveito de alguns, o atingimento económico ou o entendimento cultural necessário para a evolução de um país e motivação da sua população.

Tal como nessa época, para além da miséria humana que estava instalada, assistimos agora, de novo, ao empobrecimento civilizacional e cultural; civilizacional com o desemprego a aumentar acentuadamente, a fome a reaparecer, os sem-abrigo a aumentarem, a higienização a diminuir, o saneamento básico a desaparecer, os pais a deixarem de ter as condições necessárias para se alimentarem convenientemente ou deixarem de poder dar aos seus filhos o alimento indispensável, designadamente os bebés a serem de novo alimentados com o leite mais barato e impróprio para a idade, levando ao aparecimento de doenças como sejam a disenteria ou malnutrição que lhe são associados com o previsível aumento da morbilidade e mortalidade; cultural, como a diminuição drástica do número de pessoas que vão a espectáculos culturais, o encerramento de cinemas, teatros, museus, fruto da política ou da necessidade de poupança das pessoas para bens alimentares que deixam de gastar dinheiro em actividades “supérfluas”, ou a diminuição significativa de compra de livros, outro índice importante na compreensão do estado cultural de um país.

Entrámos assim na segunda década deste século com um aumento da taxa de mortalidade infantil, que embora teoricamente ainda seja aceitável, não temos dúvidas que o seu aumento gradual mas progressivo desde o ano de 2011, levar-nos-à aos poucos, para valores que se equiparão à nossa actual (in)significância, por mais que o Ministério da Saúde, através do seu órgão Direcção Geral de Saúde, ou a própria Ordem dos Médicos, “pareçam” duvidar das razões da  inversão dos valores que na nossa sociedade actual explicam essa mesma transposição.