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quarta-feira, 8 de março de 2017

Diário de leitura - Livro "À Luz do que sabemos" de Zia Haider Rashman


Após o livro “Bússola”, que me marcou profundamente, tomei a coragem de ler o livro “À Luz do que sabemos” de Zia Haider Rahman, romance que nos leva ao estado de uma insónia permanente, através de uma história, que exemplifica o que se modificou no mundo a partir do 11 de Setembro de 2001 e do aproveitamento politico e económico que aquela catástrofe permitiu, não se olhando a meios para atingir os fins da ilegalidade.

É um romance fascinante, que monopoliza variados temas culturais, que vão desde os valores epidemiológicos do mundo orientalista que passaram a ser explorados de maneira diferente, com a conivência das grandes potências, nomeadamente EUA e Inglaterra. Também o racismo, a emigração, fenómenos históricos, religiosos e económicos são romanceados neste livro, a partir da epopeia de um homem que se desagregou psicologicamente com o conhecimento inesperado das situações que teve de enfrentar e confrontar.

Finalmente o aproveitamento sob a capa das Organizações Não Governamentais, para pessoas que sem qualquer escrúpulo enriquecerem, sem terem qualquer pudor em assassinar, violar, ou fazer rebentar bombas para acabar com os “indesejáveis”, entre outros factos.  

Um romance que afinal terá muito de realidade sendo na minha opinião um livro de não-ficção  romanceado, porque a verdade está lá, bem inserida e apresentada.

Livro a não deixar de ler, pese as suas 736 páginas.


Classificação 5/5 conversador, obrigatório



sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Diário de leitura - Livro "Bússola" de Mathias Enard


Iniciei a leitura deste romance com cuidado redobrado já que tinha a ideia que iria adquirir conhecimentos sobre assuntos pouco comentados no mundo literário; para além disso Mathias Enard utiliza uma linguagem acompanhada de musicologia, estilo a que não estamos habituados, ainda para mais sendo muito dela oriunda dos países árabes.

É uma lição de conhecimento e deslumbramento sobre o mundo orientalista, numa sucessão de aventuras oriundas de artistas, académicos e aventureiros, ousadas e arriscadas em países orientalistas bem conhecidos de nós, nomeadamente pelas piores razões.

O rosto da revolução. Na página 327: “os jovens iranianos que tinham vivido entre o Xá e a Republica Islâmica, esta classe média que tinha gritado, escrito, lutado, acabaram todos enforcados, mortos ou obrigados ao exílio…” se dúvidas houvesse!!!

Também um romance de amor impossível naquele mundo sem tréguas, em que tudo se explora e muito se perde, ou se ganha.

Um livro esplêndido.


Classificação 5/5, livro conversador, obrigatório.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Diário de leitura - Livro "Não se pode morar nos olhos de um gato" de Ana Margarida de Carvalho



Fabuloso e prodigioso este livro, que desde logo apresenta um titulo fascinante e chamativo.  Desde o primeiro parágrafo somos envolvidos na leitura com se da própria história também nós fizéssemos parte.

Impõe-nos um certo ritmo de leitura através de uma escrita densa, espessa, complexa e profunda que nos obriga a uma atenção redobrada e que maquinalmente somos impelidos a mantermos fixamente a atenção na história, tal é o interesse que se instalou na nossa mente, a pensar na surpresa sobre o desenvolvimento das páginas seguintes.

Uma história de sofrimento na ação de várias e distintas personagens, que por motivos díspares cruzaram a história de Portugal em conexão com o Brasil e países de África. O leitor quando dá por si integra também a emoção do náufrago, nunca abandonado pela “Santa”, como que sendo aprisionado no fascínio desta escrita estilística muito pessoal da escritora, mas que tento subentender estar próxima tanto de José Saramago como de Rentes de Carvalho.

Sem dúvida um dos melhores livros de 2016.

Classificação 5/5, livro conversador, obrigatório.

domingo, 13 de novembro de 2016

Diário de leitura - Livro "História de um Canalha" de Julia Navarro


Livro apropriado para leitura de férias, como foi o meu caso, onde é abordado o tema sobre a manipulação física e psíquica da mente da mulher, transportadas para o mundo dos tormentos, através da crueldade de um homem, que não olha a meios para atingir o seu fim, nem que daí provenha a morte das mesmas.

Thomas, sendo um solitário, sem sentimentos, com vontade de praticar o mal desde que com isso consiga objectivar a sua pretensão, é um grande manipulador mesmo que para isso tenha de atingir a crueldade extrema.

Consegue mesmo após a sua morte manter a sua presença destruidora, condicionando a vida dos envolventes da sua vida anterior.

Sendo um livro de leitura fácil, não é uma grande obra literária, mas explora um tema interessante, a maldade, tema atual, focando-a com uma profundidade extrema, através de uma narrativa cativante, sedutora, que prende o leitor à sua leitura pelo tema aliciante e atractivo. 

Classificação 3/5, livro cordial.


quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Diário de leitura - Livro "Numa Casca de Nós" de McEwan


O mundo “fechado” da obstetrícia, no diz respeito à evolução do feto na vida intrauterina, sendo um mundo maravilhoso, apresenta uma faceta ignorada na ciência, que leva à eventualidade imaginativa do que poderá ser a evolução mental no mundo da intimidade, durante o tempo em que feto reage aos estímulos, que se movimenta, procura posições cómodas, ri ou chora na sua presença amniótica.

Aproveitando o conhecimento da ciência sobre a influência das emoções maternas no desenvolvimento psíquico do feto, McEwan idealiza uma história em que o feto com o seu poder de dedução sobre o mundo que o envolve é o narrador principal, tecendo considerandos e refletindo sobre temas da actualidade, que envolvem a sociedade em geral, analisando o mundo a partir do seu saco amniótico.

É uma leitura suave, agradável, tornando que se torna progressivamente empolgante, com suspense no ultimo terço do livro, o que nos leva a ter dificuldade em largar o livro até o mesmo ser terminado.

Classificação: 4,  Livro com alma.

domingo, 6 de março de 2016

Diário de leitura - O Alentejo e Raposo: Porquê tanta polémica?





Antes do seu lançamento, já o livro “Alentejo prometido”, levantava polémica nos meios sociais, como o Facebook, o Twitter e alguns blogues, tendo-se chegado a situações extremas, nomeadamente com ameaças à integridade física do autor.


De tal maneira “foi o levantamento” que houve um jornalista que fez a comparação com a fatwa contra Salman Rushdie.


Tudo isto encapotado no facto do autor tratar o suicídio no Alentejo Litoral, partindo da sua própria cronologia.


Li o livro ontem (foi lançado a nível nacional há dois dias).


Fico particularmente, como leitor mas também como português, desagradado por se ter levantado tanta polémica, apenas por se pretender levar ao conhecimento profundo o aclarar do Alentejo, neste caso o seu Litoral com as suas histórias antigas, mas que se mantém recentes.

Ou talvez não, quando o autor revela o que sabemos ser uma realidade passada mas ainda presente, infelizmente, ao unir em puzzle a Igreja, as Mulheres, o Suicídio e como afirma “o Complexo Desenraizado”.


As Igrejas “inóspitas no interior” e “feias no exterior” são uma veracidade que se estende pelo país fora quando vemos as mesmas muitas vezes abandonadas, com o interior vazio ou esvaziado, mas por motivos variados; é “crime” haver coragem para desmascarar o mau reinado de quem na Igreja devia ter a obrigação de velar por aquilo que ainda são os monumentos de maior importância neste pequeno país. A Igreja não se preocupou com o analfabetismo, a miséria inerente a esta gente ou a possibilidade de dar meios para a possibilidade de um conhecimento cultural mínimo.


As mulheres; sem dúvida uma atmosfera muçulmana reinante por aquelas bandas; Rentes de Carvalho no seu livro “Ernestina” regressando às suas origens descreve com clareza o fraco papel de intervenção das mulheres na sociedade que no século XX, pouco diferia nalguns aspectos da época medieval; António Lobo Antunes em “Sôbolos Rios Que Vão” aventura-se na descrição da cumplicidade entre o seu próprio pai e uma empregada doméstica na Beira Alta. Henrique Raposo descrevendo a elevada percentagem de filhos ilegítimos dá exemplos de bastardia, indo com coragem ainda mais longe, ao afirmar que “homens da alta sociedade, de Manuel Alegre a Nicolau Breyner iniciavam a vida sexual impondo-se às criadas e trabalhadoras”.


O suicídio, o mais polémico, mas talvez o menos polémico na realidade, pela sua verdade factual, sendo descrito com rigor e precisão tanto geneticamente como socialmente tendo em vista o desinteresse, o desenraizamento, como prática colectiva.


O complexo do desenraizado provavelmente inerente aos temas que se interrelacionam.


Será que todas estas descrições incomodaram tanta gente ao ponto das ameaças veladas terem sido levadas a sério?


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Diário de leitura - Somos Estrangeiros no Nosso País


Reli recentemente o livro “O estrangeiro” de Alberto Camus. Revi-me como a maioria da população portuguesa a vaguear entre os extremos do que são a incompreensão e a existência de sentimentos, tal como é a realidade genérica desta obra.

Estamos num país que foi empobrecendo ao longo das últimas décadas pela existência de personalidades (plural ou singular tanto faz) que permanecendo em cargos de liderança, permanente ou alternadamente, não mostraram ambição para a mudança, ou modificação do estado de “ruína” económica em que nos encontramos, através de um desinteresse abismal, enorme e absurdo, numa falta de sentimentos pelos sacrifícios que a população neste momento sofre e suporta, no meu entender a verdadeira realidade da personagem principal do livro.

Durão Barroso resolveu sem concurso, como devia ser norma, nomeadamente de alguém que teve a responsabilidade máxima na Europa, o problema de emprego do filho no Banco de Portugal, saltando por cima da legalidade e da legislação que o mesmo bem conhece, e que lhe “deu jeito” esquecer.

João Soares também se lembrou dele próprio e não do desemprego que grassa em Portugal, resolvendo com o atual governo o problema da empregabilidade do filho, licenciado em história, tornando-o assessor no Ministério da Educação.

Como tantos outros casos, que vão sendo divulgados na comunicação social e nos meios sociais, esse tédio pelos reais problemas do país, a observação cínica pela realidade da classe média e da classe pobre, faz supor que somos cada vez mais estrangeiros num país que tem uma soberania dúbia, sendo integrante de vários países, se nos lembrar-mos da venda ignóbil e sórdida de grande parte do património português – faltava também parte da TAP ser entregue aos chineses, como tivemos conhecimento há poucos dias.

Mersault, personagem principal é a passividade de um povo que tudo consente, porque nem armas legais tem ao seu alcance, acabando apenas por dizer o indispensável e o imprescindível. Ele demonstra, principalmente na parte final do livro, a ideia da indiferença perante a vida, desprovida muitas vezes de sentido, dando uma visão céptica da realidade por desinteresse de fazer parte de uma sociedade que descrê nos seus valores, que deveriam ser dominantes, mas que deixaram de existir, moralmente e eticamente.

Se este livro escandalizou, por provocação a época em que foi publicado, hoje a personagem principal espelha a imagem da desagregação politica e social de um mundo em que Portugal, infelizmente, é um exemplo real.   


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O livro "Oblomov" de Ivan Gontcharov



São 646 páginas em que se mergulha numa literatura “dócil, esplendorosa, calorosa e perfumada”, na caracterização do protagonista do romance que com uma preguiça permanente, consegue transformar a mesma num sonho duradoiro, desejos que se transformam em felicidade.


Uma surpresa este livro. Afinal a preguiça não é só a vontade de nada fazer. Pode ser um protesto contra a própria vida, uma outra maneira de satisfazer o próprio ego, num respeito cego com tudo o que o rodeia, numa vida em que o ressentimento não existe, sem a inveja, tão declarada e espalhada na Rússia da época.

O preguiçoso e o amigo, metáfora da época, entre a generosidade e altruísmo de um lado e a ambição de uma vida lutadora com objetivos delineados do outro lado.

Se fosse hoje tudo seria reduzido à depressão e à “louca” necessidade de medicação, entre outros medicamentos contar-se-iam os antidepressivos.


Uma grande obra literária, que recomendo. 

domingo, 29 de dezembro de 2013

O SILO, no Mundo das Bananas

Durante as férias decidi ler um livro com um género de literatura que normalmente não me é de primeira escolha, pelos conceitos e exposição dos assuntos em geral.

Entrei num mundo diferente pós-apocalíptico, em que uma comunidade tenta sobreviver num gigantesco silo subterrâneo hierarquizado, estratificado e rígido, com as hierarquias com excessiva categorização vertical, demasiado rígidas, não tendo “pejo” em enviar para o exterior, sem retorno, como” limpeza”, as pessoas que tentam questionar a realidade autoritária, ou argumentar sobre o seu funcionamento, contestando assim as regras infalíveis dessa comunidade.

Foi realmente uma experiência nova, útil e benéfica, que me estimulou e me vai impelir para outros horizontes de leitura, na escrita dirigida ao imaginário, irreal e utópico; mas também que esse mesmo mundo imaginário e utópico levará de certeza à reflexão sobre o mundo social e político em que vivemos.

É que este mundo apocalíptico e imaginário, é infelizmente real no mundo actual;

Pode-se perfeitamente comparar o conteúdo desta obra, nomeadamente o gigantesco silo subterrâneo, ao que se passa ainda e infelizmente nos países totalitários, em que a impossibilidade de expressar ideias por falta de liberdade, sem respeito pela autonomia do ser humano é total, para isso existindo também um mundo demasiado hierarquizado, que tenta não cometer o menor erro no sentido de manter nesse mesmo mundo o domínio totalitário total.

E nos países dito democratas?

Será que quando se pretende afirmar o correcto, ser integro contrariando, ser honesto desmentindo, ser correcto opondo-se, a diferença será na sociedade real, tão significativa, como nos tenta elucidar a palavra “democracia”?

terça-feira, 19 de novembro de 2013

A Desumanização

"A Desumanização" de Valter Hugo Mãe, é um livro que trata a morte na sua forma desumana, triste e pesarosa; a leitura é pesada, mantendo o leitor num tom de  melancolia, tristeza e angustia até às ultimas letras.

Escreve com o seu "tom" poético normal, algo que normalmente nos faz manter o interesse por um determinada leitura; no entanto este livro não nos dá aquilo que muitas vezes procuramos, que é obrigar-nos a pensar, raciocinar, reflectir e meditar. 

Gosto de livros que me ensinem algo e me façam pensar, que dêem conhecimento, esperança e relatem a humanidade como um sinal de sobrevalorização, que a sociedade pode por desconhecimento ou por incultura não atingir.  

Sei que é um autor de amores e ódios, considerado um dos melhores da sua geração, com um livro de sucesso "A máquina de fazer espanhóis" livro que mantenho na estante para ser lido na altura possível, mas que sei não ser tão  triste e desumano, nem angustiante.

Este livro conta-nos a história de uma jovem que perde a irmã gémea, carregando a partir daí duas almas e o sentido de que a morte é um estado que em qualquer altura pode estar presente. Tem uma personalidade triste e angustiante, vivendo numa tormenta constante, à qual não é alheia a vivência dos pais, uma terra inóspita e um namoro ocasional que se tornou definitivo. É a menos morta das duas almas. São descritas cenas de crueldade, impiedade, brutalidade, violência física e psíquica, que leva a jovem um estado de solidão e perturbação permanente. 

É a vivência de uma aldeia, como tantas, perdida no confins da Islândia, em terreno frio, pobre e em que a morte e a perda fazem parte do enredo.

Mas é uma escrita poética e bonita, por vezes de difícil interpretação, em que as palavras são belas, sublimes e perfeitas. Por exemplo:

"A morte é um exagero. Leva demasiado. Deixa muito pouco".

"Quem não sabe perdoar só sabe coisa pequenas".


terça-feira, 29 de março de 2011

A Karma, o Nirvana e a Politica



Siddhartha descreveu o Nirvana como um estado de calma, paz, pureza de pensamentos, libertação, transgressão física, elevação espiritual e o acordar à realidade. O Karma é descrito como o conjunto de acções no "além" em que se pode receber um mal em intensidade equivalente ao mal praticado em vida ou um bem em energia equivalente ao bem provocado enquanto vivo, correspondendo às boas acções. 

Acabei de ler o livro "Maldito Karma" de David Safier em que a protagonista principal Kim Lange teve uma morte fatídica...acordando com seis patas, uma cabeça enorme e duas antenas; devido ao seu passado de mau Karma, passou a ser uma formiga.

Na sua vida como formiga descobriu que precisava de acumular "bom Karma", o que foi conseguindo; depois de ter reincarnado em porquinho da India, em bezerro e em minhoca conseguiu finalmente atingir o Nirvana, percebendo que "a vida lhe fora devolvida".

Após a leitura deste descontraido romance dei por mim a meditar sobre a Karma e a politica em Portugal, onde o engenho, a habilidade, a subtileza e o talento que levam ao esquecimento real dos verdadeiros problemas do país está demasiado intrinseco no poder. Este cada vez mais se encontra afastado das verdadeiras pretensões do povo, que apenas deseja ter uma vida de trabalho, conforto e bem-estar, num ambiente que deva ser pacífico e constructivo numa base vincada de diálogo.

Mas a minha reflexão ponderada perturbou-me  pelo incómodo de pensar que com a actual classe política, fechada sobre si própria, de costas voltadas para o povo, afastados do bom Karma, se não poderão provocar no futuro, o aparecimento de verdadeiros exercitos de formigas, mais poderosos que os de Hittler que pela sua violência, continuam ainda muito vincados na memória escrita.