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quarta-feira, 8 de março de 2017

Diário de leitura - Livro "À Luz do que sabemos" de Zia Haider Rashman


Após o livro “Bússola”, que me marcou profundamente, tomei a coragem de ler o livro “À Luz do que sabemos” de Zia Haider Rahman, romance que nos leva ao estado de uma insónia permanente, através de uma história, que exemplifica o que se modificou no mundo a partir do 11 de Setembro de 2001 e do aproveitamento politico e económico que aquela catástrofe permitiu, não se olhando a meios para atingir os fins da ilegalidade.

É um romance fascinante, que monopoliza variados temas culturais, que vão desde os valores epidemiológicos do mundo orientalista que passaram a ser explorados de maneira diferente, com a conivência das grandes potências, nomeadamente EUA e Inglaterra. Também o racismo, a emigração, fenómenos históricos, religiosos e económicos são romanceados neste livro, a partir da epopeia de um homem que se desagregou psicologicamente com o conhecimento inesperado das situações que teve de enfrentar e confrontar.

Finalmente o aproveitamento sob a capa das Organizações Não Governamentais, para pessoas que sem qualquer escrúpulo enriquecerem, sem terem qualquer pudor em assassinar, violar, ou fazer rebentar bombas para acabar com os “indesejáveis”, entre outros factos.  

Um romance que afinal terá muito de realidade sendo na minha opinião um livro de não-ficção  romanceado, porque a verdade está lá, bem inserida e apresentada.

Livro a não deixar de ler, pese as suas 736 páginas.


Classificação 5/5 conversador, obrigatório



domingo, 19 de fevereiro de 2017

Os Meus Rascunhos - Transplante de Orgãos: Crimes Contra a Humanidade na China


Fiquei surpreendido com uma reportagem recentemente apresentada num canal televisivo sobre a violência dos transplantes de órgãos advindos estes dos praticantes de Falun Gong, encarcerados não por quererem o mal da sociedade mas porque desenvolvem fortes valores morais na China, inaceitáveis pelos tiranos que governam esse país.

Falun Gong é uma prática que cultiva a mente e o corpo, cujos valores morais se assimilam à natureza do universo através da aplicação da verdade, da benevolência e da tolerância, fortalecendo desse modo a saúde mental e física das pessoas.

O governo da China, inexplicavelmente desde 1999 que persegue estes praticantes com reeducação, prisão, trabalho forçado, tortura física e pena de morte.

É uma preocupação crescente em toda a comunidade internacional estes praticantes serem executados no sentido de fornecerem órgãos para receptores de transplante, sob o olhar complacente de organizações como as Nações Unidas e outras que se limitam a pedir explicações sobre a sua origem, quando existem provas convincentes que este negócio passa também além fronteiras beneficiando muita gente que sem escrúpulos vai à China para ser transplantado, inclusive do coração (mata-se um ser humano de imediato para fornecer este órgão a outro).

São ganhos financeiros exorbitantes, sendo uma industria que movimenta um bilião de dólares por ano desta abusiva criminalidade, que infelizmente os governantes de todo o mundo mantém uma atitude complacente, de silêncio ignóbil, permitindo a perpetuação deste tipo de abuso e tortura.


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Diário de leitura - Livro "Bússola" de Mathias Enard


Iniciei a leitura deste romance com cuidado redobrado já que tinha a ideia que iria adquirir conhecimentos sobre assuntos pouco comentados no mundo literário; para além disso Mathias Enard utiliza uma linguagem acompanhada de musicologia, estilo a que não estamos habituados, ainda para mais sendo muito dela oriunda dos países árabes.

É uma lição de conhecimento e deslumbramento sobre o mundo orientalista, numa sucessão de aventuras oriundas de artistas, académicos e aventureiros, ousadas e arriscadas em países orientalistas bem conhecidos de nós, nomeadamente pelas piores razões.

O rosto da revolução. Na página 327: “os jovens iranianos que tinham vivido entre o Xá e a Republica Islâmica, esta classe média que tinha gritado, escrito, lutado, acabaram todos enforcados, mortos ou obrigados ao exílio…” se dúvidas houvesse!!!

Também um romance de amor impossível naquele mundo sem tréguas, em que tudo se explora e muito se perde, ou se ganha.

Um livro esplêndido.


Classificação 5/5, livro conversador, obrigatório.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Diário de leitura - Livro "Não se pode morar nos olhos de um gato" de Ana Margarida de Carvalho



Fabuloso e prodigioso este livro, que desde logo apresenta um titulo fascinante e chamativo.  Desde o primeiro parágrafo somos envolvidos na leitura com se da própria história também nós fizéssemos parte.

Impõe-nos um certo ritmo de leitura através de uma escrita densa, espessa, complexa e profunda que nos obriga a uma atenção redobrada e que maquinalmente somos impelidos a mantermos fixamente a atenção na história, tal é o interesse que se instalou na nossa mente, a pensar na surpresa sobre o desenvolvimento das páginas seguintes.

Uma história de sofrimento na ação de várias e distintas personagens, que por motivos díspares cruzaram a história de Portugal em conexão com o Brasil e países de África. O leitor quando dá por si integra também a emoção do náufrago, nunca abandonado pela “Santa”, como que sendo aprisionado no fascínio desta escrita estilística muito pessoal da escritora, mas que tento subentender estar próxima tanto de José Saramago como de Rentes de Carvalho.

Sem dúvida um dos melhores livros de 2016.

Classificação 5/5, livro conversador, obrigatório.

domingo, 13 de novembro de 2016

Diário de leitura - Livro "História de um Canalha" de Julia Navarro


Livro apropriado para leitura de férias, como foi o meu caso, onde é abordado o tema sobre a manipulação física e psíquica da mente da mulher, transportadas para o mundo dos tormentos, através da crueldade de um homem, que não olha a meios para atingir o seu fim, nem que daí provenha a morte das mesmas.

Thomas, sendo um solitário, sem sentimentos, com vontade de praticar o mal desde que com isso consiga objectivar a sua pretensão, é um grande manipulador mesmo que para isso tenha de atingir a crueldade extrema.

Consegue mesmo após a sua morte manter a sua presença destruidora, condicionando a vida dos envolventes da sua vida anterior.

Sendo um livro de leitura fácil, não é uma grande obra literária, mas explora um tema interessante, a maldade, tema atual, focando-a com uma profundidade extrema, através de uma narrativa cativante, sedutora, que prende o leitor à sua leitura pelo tema aliciante e atractivo. 

Classificação 3/5, livro cordial.


quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Diário de leitura - Livro "Numa Casca de Nós" de McEwan


O mundo “fechado” da obstetrícia, no diz respeito à evolução do feto na vida intrauterina, sendo um mundo maravilhoso, apresenta uma faceta ignorada na ciência, que leva à eventualidade imaginativa do que poderá ser a evolução mental no mundo da intimidade, durante o tempo em que feto reage aos estímulos, que se movimenta, procura posições cómodas, ri ou chora na sua presença amniótica.

Aproveitando o conhecimento da ciência sobre a influência das emoções maternas no desenvolvimento psíquico do feto, McEwan idealiza uma história em que o feto com o seu poder de dedução sobre o mundo que o envolve é o narrador principal, tecendo considerandos e refletindo sobre temas da actualidade, que envolvem a sociedade em geral, analisando o mundo a partir do seu saco amniótico.

É uma leitura suave, agradável, tornando que se torna progressivamente empolgante, com suspense no ultimo terço do livro, o que nos leva a ter dificuldade em largar o livro até o mesmo ser terminado.

Classificação: 4,  Livro com alma.

domingo, 6 de março de 2016

Diário de leitura - O Alentejo e Raposo: Porquê tanta polémica?





Antes do seu lançamento, já o livro “Alentejo prometido”, levantava polémica nos meios sociais, como o Facebook, o Twitter e alguns blogues, tendo-se chegado a situações extremas, nomeadamente com ameaças à integridade física do autor.


De tal maneira “foi o levantamento” que houve um jornalista que fez a comparação com a fatwa contra Salman Rushdie.


Tudo isto encapotado no facto do autor tratar o suicídio no Alentejo Litoral, partindo da sua própria cronologia.


Li o livro ontem (foi lançado a nível nacional há dois dias).


Fico particularmente, como leitor mas também como português, desagradado por se ter levantado tanta polémica, apenas por se pretender levar ao conhecimento profundo o aclarar do Alentejo, neste caso o seu Litoral com as suas histórias antigas, mas que se mantém recentes.

Ou talvez não, quando o autor revela o que sabemos ser uma realidade passada mas ainda presente, infelizmente, ao unir em puzzle a Igreja, as Mulheres, o Suicídio e como afirma “o Complexo Desenraizado”.


As Igrejas “inóspitas no interior” e “feias no exterior” são uma veracidade que se estende pelo país fora quando vemos as mesmas muitas vezes abandonadas, com o interior vazio ou esvaziado, mas por motivos variados; é “crime” haver coragem para desmascarar o mau reinado de quem na Igreja devia ter a obrigação de velar por aquilo que ainda são os monumentos de maior importância neste pequeno país. A Igreja não se preocupou com o analfabetismo, a miséria inerente a esta gente ou a possibilidade de dar meios para a possibilidade de um conhecimento cultural mínimo.


As mulheres; sem dúvida uma atmosfera muçulmana reinante por aquelas bandas; Rentes de Carvalho no seu livro “Ernestina” regressando às suas origens descreve com clareza o fraco papel de intervenção das mulheres na sociedade que no século XX, pouco diferia nalguns aspectos da época medieval; António Lobo Antunes em “Sôbolos Rios Que Vão” aventura-se na descrição da cumplicidade entre o seu próprio pai e uma empregada doméstica na Beira Alta. Henrique Raposo descrevendo a elevada percentagem de filhos ilegítimos dá exemplos de bastardia, indo com coragem ainda mais longe, ao afirmar que “homens da alta sociedade, de Manuel Alegre a Nicolau Breyner iniciavam a vida sexual impondo-se às criadas e trabalhadoras”.


O suicídio, o mais polémico, mas talvez o menos polémico na realidade, pela sua verdade factual, sendo descrito com rigor e precisão tanto geneticamente como socialmente tendo em vista o desinteresse, o desenraizamento, como prática colectiva.


O complexo do desenraizado provavelmente inerente aos temas que se interrelacionam.


Será que todas estas descrições incomodaram tanta gente ao ponto das ameaças veladas terem sido levadas a sério?


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Diário de leitura - Somos Estrangeiros no Nosso País


Reli recentemente o livro “O estrangeiro” de Alberto Camus. Revi-me como a maioria da população portuguesa a vaguear entre os extremos do que são a incompreensão e a existência de sentimentos, tal como é a realidade genérica desta obra.

Estamos num país que foi empobrecendo ao longo das últimas décadas pela existência de personalidades (plural ou singular tanto faz) que permanecendo em cargos de liderança, permanente ou alternadamente, não mostraram ambição para a mudança, ou modificação do estado de “ruína” económica em que nos encontramos, através de um desinteresse abismal, enorme e absurdo, numa falta de sentimentos pelos sacrifícios que a população neste momento sofre e suporta, no meu entender a verdadeira realidade da personagem principal do livro.

Durão Barroso resolveu sem concurso, como devia ser norma, nomeadamente de alguém que teve a responsabilidade máxima na Europa, o problema de emprego do filho no Banco de Portugal, saltando por cima da legalidade e da legislação que o mesmo bem conhece, e que lhe “deu jeito” esquecer.

João Soares também se lembrou dele próprio e não do desemprego que grassa em Portugal, resolvendo com o atual governo o problema da empregabilidade do filho, licenciado em história, tornando-o assessor no Ministério da Educação.

Como tantos outros casos, que vão sendo divulgados na comunicação social e nos meios sociais, esse tédio pelos reais problemas do país, a observação cínica pela realidade da classe média e da classe pobre, faz supor que somos cada vez mais estrangeiros num país que tem uma soberania dúbia, sendo integrante de vários países, se nos lembrar-mos da venda ignóbil e sórdida de grande parte do património português – faltava também parte da TAP ser entregue aos chineses, como tivemos conhecimento há poucos dias.

Mersault, personagem principal é a passividade de um povo que tudo consente, porque nem armas legais tem ao seu alcance, acabando apenas por dizer o indispensável e o imprescindível. Ele demonstra, principalmente na parte final do livro, a ideia da indiferença perante a vida, desprovida muitas vezes de sentido, dando uma visão céptica da realidade por desinteresse de fazer parte de uma sociedade que descrê nos seus valores, que deveriam ser dominantes, mas que deixaram de existir, moralmente e eticamente.

Se este livro escandalizou, por provocação a época em que foi publicado, hoje a personagem principal espelha a imagem da desagregação politica e social de um mundo em que Portugal, infelizmente, é um exemplo real.