Aquele era mais um dia,
semelhante aos anteriores, desde que dei entrada nesta cama com a cabeceira
perto de uma pequena janela, cuja luminosidade fosse a claridade ou a
cintilação da lua, não me ajudava a saber as horas, mas ia-me permitindo ainda
conseguir diferenciar entre o ser dia ou o ser noite.
Era um pequeno rectângulo de espaço,
uma cama apertada, mas o suficiente para saber que a minha vida dependeria
dessa pequena extensão, já que tinha um tubo ligando os pulmões a um ventilador
mecânico, que fazia o trabalho daquele, permitindo-me sonhar com a vida mas percebendo
também que o limiar entre essa mesmo e a sobrevivência pode ser extremamente
pequeno.
Nos poucos momentos que eram de
lucidez, acordava sem saber se passavam minutos, horas ou dias; ouvia os
médicos e os enfermeiros cochichando; lá iam dizendo que o “caso é mau”, “provavelmente
vai morrer”, “o choque está a ser refractário aos medicamentos”, “os antibióticos
não estão a surtir o efeito desejado”…
É a sensação do nada, um vazio
que não é preenchido porque é oco mas também vago, o saber que se vai morrer,
num corpo sem resposta imunológica, mas interessantemente, sem desejo de morrer,
porque sente e que para além desse vazio do nada, não existe dor, só sofrimento psíquico.
Surge a recordação da vida, a lembrança de ter sido demasiado vivida ou então
dos momentos que nunca foram vividos, mas agora ainda mais que nunca, é altura
de discernir que viver é existir, é pensar, raciocinar e meditar pese os poucos
instantes de lucidez, apesar da altura sendo antagónica, não ser por isso mesmo
o momento mais propicio a sedimentar aquilo que poderá ser noutras ocasiões o
fortalecimento do nosso ego.
Lembro-me de discussões sobre a
eutanásia, tenha sido com amigos, após filmes vistos, ou após leituras lidas e
relidas; aquilo de se ser um farrapo humano, um pedaço de vida escondido só
para se poder afirmar que se está vivo, cheio de dores física e psíquica, um
corpo sem dignidade, sem honra e vulnerável, não o sinto, penso de outro modo,
cogito e reflicto, os tempos são outros, a medicina evoluiu. Hoje a dor é parte
integrante da preocupação e da compreensão dos profissionais de saúde, que
perante medicamentos em escolha, limitam essa mesma dor aos limites da
incompreensão cerebral, pelo que, se ela ainda existe não deixa de ser um sopro
ou um assobio que rapidamente se encobre perante os químicos que de maior
poderio assim o impõe e ordena na compreensão do puzzle que é o nosso corpo orgânico.
Sobrevivi,
Apetece-me dar um grito, que seja
audível à distância, feliz, ditoso e afortunado. A compaixão de quem sofre é
uma realidade da sociedade actual, mas a evolução intelectual e tecnológica do
século XXI, com os conhecimentos recentes de como actuar sobre o físico e o psíquico
dos doentes que sofrem e pensam que a eutanásia será o destino mais sequente de
deixarem de sofrer, eu direi,
Não,
A vulnerabilidade? Ultrapassar-se-à com a relembrança: Os familiares, os amigos, os sonhos, os projectos,
A medicação para me fazer
esquecer a dor, dando a vitalidade necessária, mas também suficiente, para
fazer ultrapassar a dificuldade que eventualmente nos possa ainda cegar em
pensamento, a esperança de saber que vivendo o mais tempo possível, na
esperança de ainda ter tempo para poder ser feliz, tendo o olhar virado para
confrontar o mundo que me foi imposto, o percurso de vida que foi exigido,
leva-me a sentir ser não uma peça do baralho, mas um ser em si mesmo, pensante
e racional, por isso mesmo a ser tentado a permanecer no trilho da vivacidade e
da vivência possível e durante o tempo que o meu organismo o desejar.
Porque acredito nisso tudo,
porque sei e senti que o sofrimento pode perfeitamente ser ultrapassável pelo desenvolvimento
dos medicamentos e da tecnologia, do aparecimento de novas formas de substituição
dos nossos órgãos, pelo afecto e ternura de quem de nós lida nesses momentos difíceis,
considero ser a eutanásia um assunto cuja compreensão não pode ser a mesma que
havia até ao fim do século passado.
Hoje o sofrimento ultrapassa-se
de variadas formas, ajudando a podermos encontrar o verdadeiro sentido da nossa
vida, não negando, desde o nascimento, o sentimento intrínseco em nós próprios,
impedindo a fuga ou a desistência, ajudando à persecução dos objectivos
próprios que nos levaram a confrontar este mundo terrível, por isso mesmo na
liberdade a manter a dignidade que sempre tivemos desde a nascença. Por tudo
sou obrigado a afirmar:
NÃO À EUTANÁSIA: Lutemos sim para
que a nossa dignidade seja uma realidade que terá de ser respeitada até ao
último suspiro.